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A vida como ela é
Publicado em: 01 Dez, 2016
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Uma bola de ténis atravessa repetidamente o court. Há uma beleza quase sensual no movimento. Esquerda, direita; esquerda, direita. Em lados opostos do campo, dois corpos aparentemente conflituam. É o último ponto do jogo. Intensidade máxima. A bola bate violentamente na parte superior da tela. Sobe uns centímetros. Cristaliza no ar por um milésimo de segundo. E o tempo pára. É hora de todas as dúvidas. Para que lado cairão aquelas 57 gramas de borracha? E o que determina a queda? A sorte? As leis da física? Os segredos da razão? Em Matchpoint, de Woody Allen, Chris, o professor de ténis que faz de protagonista, não tem dúvidas. Diz ele: “Prefiro ter sorte do que ser bom.” A moral da história é óbvia: a diferença entre a vitória e a derrota, o amor e o ódio, o certo e o errado, a paixão e a repulsa, a felicidade eterna e a eterna infelicidade pode ser mais arbitrária do que é confortável pensar. Porque os opostos, como tão bem explicou há uns anitos um senhor grego chamado Heraclito, são irmãos de sangue, estão colados, incapazes de viverem separados. E o resultado da sua relação é quase sempre imprevisível.

É nesta equação indecifrável que todos nos movimentamos. Abrir uma gigantesca folha de Excel numa das milhares de milhões de gavetas da nossa massa encefálica para tomar decisões importantes na vida não é apenas insuficiente – é provavelmente inconsequente. Porque a vida é mais complexa do que isso, como o prova a intensa – e amplamente contraditória – produção filosófica sobre o fenómeno ao longo dos séculos. Há os ingénuos, como Kant, os pessimistas, como Nietzsche, e os catastrofistas, como o conhecido pós-moderno brasileiro Fábio Porchat, que deu recentemente um contributo importante para a reflexão através de um sketche da Porta dos Fundos.

Dirigindo-se a uma subordinada, um chefe de vendas (interpretado precisamente por Fábio Porchat) diz-lhe, em gritos de rara erudição e sabedoria: “A vida não é esta piroca cabeçuda que tu chupas dia sim, dia não, quando a tua mãe sai para ir à feira. A vida é um cu preto que um dia já foi rosado e que hoje só toma estocada de caralho murcho; a vida é um mamilo do tamanho de um crânio já todo rasgado de tanta mamada que deu; e a tua atitude perante ela tem de ser a de uma dominatrix com o grelo do tamanho de uma papaia, já toda desbeiçada por conta de uma vida sexual desvairada.”

Embora não seja tão ingénuo como Kant, também não sou tão catastrofista como Porchat. Porque admito que a vida não é uma belíssima e reluzente piroca cabeçuda, mas também não me parece que se resuma a um mamilo do tamanho de um crânio desgastado por um traumático historial de sucção. É qualquer coisa a meio disso. Há, porém, algo em que o bom do Fábio tem razão: a emergência da figura da Dominatrix. Claro que dispenso o grelo e coiso e tal mas a ideia é esta: tentar controlar a parte que nos cabe a nós. E depois deixar que a agilidade (ou a falta dela) do companheiro de jogo e a Estrelinha da sorte tomem conta do resto.

 

origem

 

“L’Origine du Monde”, de Gustave Coubert









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