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Sim, Portas é ele e o seu contrário. E então? (A minha crónica no site da Sábado)
Publicado em: 12 Jan, 2016
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portas

Sim, ele jurou que ficava e não ficou, que não taxava e taxou, que vetava e não vetou, que detestava e até gostou, que gritava e calou, que vetava e viabilizou. Sim, ele prometeu que ajudava e não ajudou, que irrevogava e revogou, que criticava e louvou, que era assim e foi assado, que era frito e foi, afinal, grelhado.

Sim, Paulo Portas nasceu para a contradição como a manteiga para o pão. Há 25 anos, quando a coluna de opinião que o celebrizou nos tempos d’O Independente se chamava “Antes pelo Contrário”, o líder centrista já era labiríntico, bipolar, paradoxal, uma coisa e o seu contrário. Na noite anterior ao anúncio público da sua primeira candidatura a deputado pelas listas do CDS/PP, o seu braço direito na redacção d’O Independente agarrou-o à saída do jornal e obrigou-o a responder-lhe à pergunta para um milhão de dólares: “Vais ou não entrar na política?” Ele colocou o seu ar mais solene e garantiu-lhe que não.

Sim, Portas diz que não quando sabe que a verdade é sim e diz que sim quando já prometeu dizer que não. Paulo é assim. Mas será que ser assim tem sido assim tão mau? A realidade é que apesar da sua vasta colecção de pequenas mentiras, frágeis verdades e escandalosas falsidades, Paulo Portas foi a melhor notícia para a direita portuguesa nos últimos 20 anos (e, já agora, para o jornalismo nacional, que revolucionou). Não fossem as suas piruetas impossíveis e um pequeno triciclo seria hoje suficiente para albergar o número de deputados do CDS na Assembleia da República. Os militantes do partido sabem disso – e é essa a razão das suas lágrimas. São lágrimas de saudade, sim, mas são também manifestações de desespero vindas de quem sabe que hoje viaja num Mercedes com GPS e ar condicionado e que amanhã terá à sua espera o banco traseiro de um táxi decrépito a precisar de reforma.

Sim, Portas disse agora que vai sair. Não vai, claro. Andará por aí. Pelas televisões, a simular que não é político. Pelos jornais, a fingir que é um senador. Pelo mundo, a viajar, à espera que o tempo passe rapidamente até que Marcelo, uma das maiores contradições da sua vida política, saia de Belém e lhe ceda a cadeira que lhe falta ocupar. Ou não. É que com Portas nunca se sabe.

CRÓNICA ORIGINALMENTE PUBLICADA AQUI









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