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O dia em que Nóvoa ardeu: A minha crónica na sede do ex-reitor
Publicado em: 25 Jan, 2016
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Faltavam 17 minutos para a derrota de Sampaio da Nóvoa passar de condicional a incondicional quando Vasco Lourenço, seu destemido apoiante, ensaiava uma vez mais perante as câmaras da RTP o blá blá blá que as “figuras referenciais da nação” guardam sempre para as noites eleitorais: o povo português é sábio, o povo português é bom, o povo português é fixe e o resto que se lixe. A cinco metros do militar de Abril, mesmo em frente ao palco instalado no antigo armazém junto ao Tejo que serviu de sede de campanha, estavam as 96 cadeiras que previsivelmente seriam ocupadas daí a pouco. Encontravam-se vazias e assim continuaram até às oito da noite, quando as televisões divulgaram as primeiras projecções, dolorosas para Nóvoa, que apostava tudo na segunda volta, e uma calamidade para a esquerda em geral, passada a ferro por um Marcelo absoluto.

Perante a hecatombe anunciada, os presentes ensaiaram o seu ar mais surpreso. Mas a verdade é que lá bem no fundo todos estavam a par da verdade menos escondida desta corrida presidencial: hoje, pelas oito da noite, as portas do Palácio de Belém abrir-se-iam inevitavelmente para Marcelo.

A sondagem da Universidade Católica, a única a admitir a possibilidade — ínfima, é certo — de uma segunda volta, ainda animou alguns crentes. “Já acendi uma velinha”, dizia um deles. De facto, perante aqueles números só mesmo um milagre evitaria que Nóvoa morresse hoje — politicamente, bem entendido.

Nessa altura o professor-poeta-ex-futebolista-que-um-dia-sonhou-ser-Presidente tinha duas hipóteses: a) optar por uma morte rápida, assumindo imediatamente a derrota; b) prolongar a dor até ao limite do que seria suportável. As palavras de entusiasmo de Correia de Campos, que pelas 20h14 protagonizou a primeira reacção da candidatura, dissiparam as dúvidas: talvez em busca da redenção, Nóvoa decidira sofrer até ao limite — arrastando com ele os cerca de duzentos apoiantes e jornalistas que enchiam a sede de campanha.

Quando, finalmente, pelas 21h46, o ex-reitor decidiu falar, a fome que se fazia sentir no armazém era já proporcional à tristeza provocada pelo desastre. Os espíritos mais pessimistas temiam que o professor prolongasse ainda mais o suplício, fazendo um longo discurso e cedendo à tentação de responder a todas as perguntas dos jornalistas. Claramente misericordioso, Nóvoa trocou-lhes a voltas: falou pouco, sorriu muito, ouviu os aplausos inflamados dos resistentes, respondeu a algumas perguntas e desapareceu com a mesma rapidez com que entrou na vida política nacional. Era oficial: a tortura terminara.









1 comentário a “O dia em que Nóvoa ardeu: A minha crónica na sede do ex-reitor

  1. Fábio Vasques

    Caro Fernando,

    Enviei mensagem pelo facebook, mas provavelmente irá parar a “outras”.
    Podes fornecer-me o teu e-mail sff?

    Obrigado.

    Responder

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