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Deputados gulosos – A minha crónica na Sábado
Publicado em: 25 Jan, 2016
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Como é sabido, a passagem de José Sócrates por São Bento não foi tão católica como alguns crentes desejariam. Durante seis anos, viveram-se e decidiram-se coisas estranhas entre aquelas paredes: telemóveis voaram alegremente ao sabor da ira do primeiro-ministro, juros galoparam loucamente ao ritmo da gula dos mercados, investimentos públicos agigantaram-se à medida da compulsão suicidária de um político para quem o amanhã era tão claro como uma fotografia desfocada.

Na sua deriva imediatista, Sócrates cometeu erros lamentáveis – o maior dos quais terá sido o endividamento irracional do país a longo prazo – mas, é justo referi-lo, também acertou algumas vezes. Criou o “Novas Oportunidades”, incentivou a inovação no Estado e nas empresas e, last but not least, acabou com as subvenções vitalícias para titulares de cargos políticos, uma vergonha nacional que esta semana ressuscitou.

Não me entendam mal: nada tenho contra políticos que querem envelhecer à conta do Estado. O que me arrepia é viver num Estado que vá nessa conversa. Sócrates esteve bem ao eliminar uma aberração que permitia que qualquer político com 12 anos de actividade tivesse direito a um miminho vitalício devidamente patrocinado pelos bolsos rotos dos contribuintes. E João Almeida, do CDS, e Duarte Pacheco, do PSD, estiveram igualmente bem em 2013, quando defenderam com sucesso um corte de 15% nas subvenções atribuídas até 2005 e a suspensão do pagamento a quem tinha mais de 2.000 euros de rendimento.

É, por isso, difícil evitar uma pontinha de vergonha alheia quando de vê um conjunto de deputados com idade e experiência para terem juízo a desenterrar um tema que a decência aconselhava a não reanimar. O “grupo dos 30” é pavoroso nas ideias e pequenino nas intenções. Não exige a reposição das subvenções tal qual eram atribuídas a toda a gente antes de Sócrates as eliminar. Até podia fazê-lo invocando uma questão de princípio. Seria criticável? Sim. Mas seria também respeitável. Em vez disso, pretendem apenas tratar das suas vidinhas – uma boa parte cumpre os requisitos necessários para aceder à subvenção.

Para políticos do calibre de José Magalhães, José Lello, Renato Sampaio, Celeste Correia, Sérgio Sousa Pinto, Guilherme Silva, Couto dos Santos ou Arménio Santos é ofensivo que o Estado, antes de os abonar para a vida, lhes peça que provem que precisam do dinheiro para sobreviver. Não importa se ganham 1 euro ou 1 milhão. O que conta é a manutenção do privilégio individual. Pequeninos, portanto.









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