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O grande apagão
Publicado em: 10 Set, 2015
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debate

Depois de um ano a levar tanta bordoada, tanto banano no trombil, tanta pêra nas fuças por parte da opinião escrita e falada, Costa teve nas últimas 24 horas direito a uns cafunés fofinhos. Motivo: o seu desempenho no debate de ontem à noite. Estranho, sobretudo se tivermos em conta que o líder do PS não apresentou uma visão, por milimétrica que fosse, para arrancar o país da desgraça em que se encontra, uma ideia para safar a segurança social da falência mais que certa, uma luz para travar o desemprego real (não o das estatísticas miríficas com que o governo entretém os indígenas), um esboço de reacção à escravatura fiscal em curso. Nada. Nada, mas ainda assim mais do que Passos Coelho mostrou. Porque o chefe da matilha Malta laranja levou menos que nada. Levou Sócrates. Fraquito. Levou a narrativa do medo. Fraquita. Levou o fantasma do aventureirismo. Ainda mais fraco. Não sou especialista em contas mas parece-me desnecessário telefonar a Arquimedes para perceber que tanta fragilidade somada só pode resultar em contabilidade política negativa. Nada de novo para Passos, que há muito está em recessão. Só não vê quem não quer. E só não quer quem prefere o terror à BD. E desses não tenho pena.

Também me abstenho de distribuir piedade pelos canais de televisão, que mandaram ao lixo uma oportunidade histórica para convencer os portugueses de que a sua utilidade não se resume a poluir o horário nobre com novelas de qualidade, vá lá, duvidosa. Recrutar 3 (três!!!) pivots de primeira linha, dar-lhes 9 (nove!!) temas para tratar em 1h30 (uma hora e meia!!!) e acreditar que daí resultará algo mais do que ruído é, mal comparado (muito mal comparado, admito), o mesmo que pretender que John Holmes poderia contracenar com um peixe-bebé sem que ocorressem danos colaterais. Mas se o meu lamentável desdém pela fauna marítima me permitiria conviver jovialmente com a dor aguda do pobre peixe, a minha consciência cívica impede-me de rejubilar com o falhanço de um debate que poderia ter sido histórico não pelos milhões que o viram, mas pelos milhões que o compreenderam. Será assim tão estúpido pensar que, estando as três estações a emitir em simultâneo (ou seja, sem que a questão da concorrência se colocasse), políticos e programadores deviam ter considerado a hipótese de tratar de forma diferente o debate televisivo mais importante das últimas décadas? Os políticos não queriam? Passavam a querer – as televisões também os obrigaram a conviver com a proibição de acederem aos temas em discussão, certo? A equidade relativamente aos partidos mais pequenos seria agredida? Azar – será entre aqueles dois que sairá um primeiro-ministro. Tratar coisas diferentes de forma igual não é apenas estúpido – é um exercício de cegueira que afecta o interesse colectivo.

Há uns anos, quando acompanhei as eleições espanholas (uma experiência marcante que, graças ao olho de lince e à forretice aguda da estrutura administrativa da Sábado – meninas, vocês sabem de quem estou a falar… -, me obrigou a perder a inocência e a conhecer as pensões mais obscenas de nuestros hermanos), também se decidiu realizar um debate transmitido em simultâneo pelas principais cadeias. Mariano Rajoy e Zapatero falaram de tudo o que era importante. Emprego. Segurança social. Governabilidade. Passado. Presente. Futuro. Duração da conversa: mais de duas horas. As suficientes para esclarecer os telespectadores numa noite em que, ao contrário do que aconteceu ontem, o moderador (um jornalista prestigiado independente das cadeias de TV) teve papel fundamental. Não se limitou a colocar roboticamente perguntas previamente preparadas. Pôde reagir às fugas dos candidatos (os políticos são iguais aqui, em Espanha ou na aldeia de Lilliput), interpelá-los, persegui-los até obter uma resposta, sem recear estar a roubar tempo e protagonismo ao colega do lado. Fez jornalismo. E, por tê-lo feito, obteve informação relevante. O que se passou ontem não foi nada disso. É no mínimo discutível seleccionar profissionais com tanto músculo e depois os enfiá-los num colete de forças de que, por mais talentosos que sejam, não se conseguem libertar. Ontem, há que admiti-lo, não se fez luz. Ironia das ironias, o apagão ocorreu no Museu da Electricidade.

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O debate mais longo: Cunhal-Soares durou mais de 3 horas









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