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A crónica no site da Sábado: “Sobre pornografia e refugiados”
Publicado em: 02 Set, 2015
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Por ser muito mais fácil apontar culpas do que inventar soluções, jornalistas, pseudo-jornalistas, políticos, candidatos a políticos, comentadores, proto-comentadores e simples patetas de ocasião têm-se entretido alegremente nos últimos dias a identificar os “culpados” pelo drama dos refugiados. E o mínimo que se pode dizer sobre a generalidade das reflexões é que a sua profundidade é inversamente proporcional à infinitude de Linda Lovelace.

Não, não é obsceno trazer a protagonista do clássico “Garganta Funda” à discussão porque as teses propaladas são do domínio do pornográfico. Escreveu-se que a culpa original do fenómeno é dos Estados Unidos, que terão espalhado o terror nas zonas de origem dos refugiados – já está na altura de pararmos de lhes chamar migrantes, certo? Disse-se que a responsabilidade é da Europa rica e desenvolvida, por desprezar homens, mulheres e crianças em aflição. Insinuou-se, de forma mais genérica, que a culpa é dos líderes ocidentais, carentes de carisma e visão. Para ser oficial que estas pessoas habitam num planeta estranho, faltou apenas dizerem que a culpa é do menino Jesus. Não chegaram a tanto, o que significa que nem tudo está perdido.

Este tipo de opiniões inquieta porque não é preciso ser Einstein para perceber que na base da catástrofe em curso está o Islão e a interpretação cega, selvagem, cretina, do Alcorão, nomeadamente por parte de grupos radicais como o autoproclamado Estado Islâmico (EI). Que culpa tem Obama quando a cúpula sunita do EI ordena a tortura, a violação e a decapitação em série da minoria xiita só porque esta tem uma visão diferente sobre a palavra do Senhor? Que culpa tem Angela Merkel no surgimento de um líder tão sanguinário como Abu Bakr al-Bagdadi? Já agora: o facto de no Médio Oriente este tipo de torcionários se multiplicarem como coelhinhos insaciáveis será coincidência do destino ou é o resultado óbvio de uma visão do mundo cujo combustível é uma dose massiva de barbárie? 

A Europa em particular não tem culpa quanto à origem do problema, mas também não tem desculpa na forma como tem reagido a ele. Os quatro metros de altura da barreira construída pela Hungria ao longo da fronteira com a Sérvia para tentar travar a entrada dos que escapam da Síria, do Iraque e do Afeganistão são milimétricos para servirem de metáfora à cobardia, desumanidade e cegueira com que a generalidade dos governos europeus, talvez com a excepção de – surpresa! – Angela Merkel, têm abordado o problema. Sim, há a crise. Sim, isto está mau para todos. Sim, as coisas são como são. Sim, com o mal dos outros podemos bem. Sim? Não, as coisas não são como são. Há que encontrar uma resposta para estas pessoas.

Duvido que a solução seja, como alguns defendem, intervir directamente na origem – reeducar fanáticos é uma utopia tão bela quanto impossível – mas tenho a certeza de que não haverá muros, por mais altos que sejam, que impeçam as mulheres de continuar a fugir da tortura e da violação, que travem os homens na procura desesperada da liberdade e que os impeça a ambos, a homens e mulheres, de continuarem a carregar tragicamente nos braços as suas crianças em busca de um futuro melhor. Pelo ar, por terra, por mar, eles continuarão a chegar. Com fome no corpo e esperança no olhar. E cabe-nos a nós, europeus, arranjar uma forma digna de os acomodar.

GREECE-EUROPE-MIGRANTS

PS: Esta crónica foi originalmente publicada AQUI









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