HOMEPAGE

Fact Checker. A amizade entre António Costa e José Sócrates: uma mentira com 24 anos
Publicado em: 27 Ago, 2015
Partilhar: Partilhar no Twitter

 

COSTA1

 

Primeiro a ladainha oficial: António Costa e José Sócrates conhecem-se desde os anos 80. Camaradas de partido, foram estrelas nos governos de António Guterres, onde construíram musculados laços de amizade que lhes permitiram caminhar juntos, de mãos dadas (que bonito), pela vida fora. Quando José Sócrates conquistou a liderança do partido teve o amigo Costa do seu lado contra João Soares e Manuel Alegre. Depois disso, chamou-o ao governo e fez dele a sua cara-metade. Deu-lhe ainda a presidência da Câmara de Lisboa e, num gesto de extrema generosidade, apoiou-o activamente na OPA que Costa decidiu fazer à liderança de António José Seguro em Junho de 2014. Entretanto aconteceu o que aconteceu a José Sócrates. E Costa, tristemente condicionado pela intensa agenda, só teve tempo para o ir visitar uma vez durante os nove meses que o amigo já leva de cárcere. E isso provoca-lhe dor – uma dor que José Sócrates compreende e aceita, até porque ele próprio já liderou o PS e sabe como as coisas são, que o caminho da liderança se faz caminhando, que a vida é o que é.

Agora a verdade sobre a relação entre António e José: estávamos em 1991 quando Jorge Sampaio perdeu clamorosamente as eleições legislativas contra Cavaco Silva. Teve 29%. Fraquito. No dia seguinte, António Guterres – um “amigo” de Sampaio, ao lado de quem combatera corajosamente Mário Soares – afirmou estar “em choque” com o resultado – uma forma original de dizer qualquer coisa como: “Prepara-te Jorginho; estou a chegar!” E chegou mesmo. Com tropas e artilharia pesada. Sampaio esperneou, resistiu, lacrimejou. Sentiu-se traído, injustiçado, ferido – tramado. O seu pequeno exército reagiu com fúria ao avanço de Guterres. A ruptura era oficial. Não há registos de sangue, mas houve gritos, ameaças, empurrões, insultos e conspirações de lado a lado. Uma guerra civil em que, do lado de Sampaio, pontificava António Costa, um jovem que tinha tanto de talentoso como de visceral. E do outro lado, estava quem? Adivinharam: mais um jovem igualmente talentoso e ainda mais visceral: José Sócrates.

Guterres venceu mas o partido ficou em cacos. Havia que voltar a juntar as peças. Missão impossível. Ninguém falava com ninguém. Até que começou a cheirar a poder. O cavaquismo estava podre, desgraçado. Sabia-se que até o Pato Donald seria eleito primeiro-ministro se concorresse contra o PSD. Resultado: não demorou muito até que sampaístas e guterristas partilhassem alegramente o quentinho das cadeiras do conselho de ministros. Durante anos, os petizes José e António disputaram a atenção do chefe Guterres. Sócrates era o menino bonito; Costa a esperança competente. Os dois ganharam peso – mas sempre em trincheiras diferentes. Costa como orgulhoso representante da “esquerda” do PS; Sócrates como rosto de uma nova forma de fazer política, mais pós-moderna – um eufemismo simpático para designar a política de pacote.

Saiu Guterres, entrou Ferro Rodrigues (um sampaísta). Traído por Sampaio (hélas) Rodrigues caiu e deu lugar a Sócrates. Que, traumatizado com a carnificina de 1991, não hesitou em eleger António Costa para seu número dois informal – uma vez mais havia que acalmar a ala sampaísta. Durante anos, alimentaram o mito de que eram amigos do peito, irmãos de armas, solidários e indestrutíveis. Juntos derrubaram Seguro (ironia das ironias: o golpe de Estado – não é exagerado chamar-lhe assim – encabeçado por Costa não é diferente do que, 24 anos antes, o fez espumar litros de fúria. Com uma agravante: ao contrário de Sampaio, Seguro acabara de vencer eleições).

Em Novembro de 2014, Sócrates foi preso. E Costa, revoltado, clamou incessantemente pela sua inocência – ah, não, isso aconteceu uns anos antes com Paulo Pedroso quando este foi detido no âmbito do processo Casa Pia. Na verdade, da única vez que foi a Évora, Costa limitou-se a dizer, à saída, que o seu camarada ia lutar por aquilo que considerava ser “a sua verdade” – a sua verdade; não a verdade dos factos. Talvez valha a pena contar dois detalhes sobre essa visita. Primeiro: para prevenir uma catástrofe, os amigos de ambos consideraram fundamental ter alguém respeitável a assistir, não fosse a coisa descambar. Escolheu-se Mário Soares – quem mais? Segundo: foi um encontro supersónico. Sócrates acusou Costa de traição. Este devolveu-lhe as acusações em dobro, abandonando a sala e ficando sentado à espera que o tempo estipulado para a visita passasse – seria embaraçoso explicar aos jornalistas porque é que a conversa só durara 15 minutos.

Não é preciso ser um génio para perceber que, depois deste encontro, Sócrates acorda e adormece a pensar na melhor forma de acabar com o “amigo”, apagá-lo do mapa, transformá-lo em pó mediático. Vale tudo: cartas enviadas para as televisões em dias fundamentais para António Costa (aconteceu no dia em que este prometeu 207 mil empregos), recados cirurgicamente plantados em jornais “amigos” (valerá a pena dizer quais são?), apoios a candidatos hostis à liderança (Maria de Belém conta com a “camaradagem” imprevista de vários fanáticos do socratismo). Por estes dias, Sócrates é uma poderosa bomba-relógio atada à cintura de Costa. Veremos se, na altura da explosão, o líder do PS tem o músculo suficiente para aguentar o embate. 

COSTA2

Amizade eterna

Esta crónica foi originalmente publicada AQUI









Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Current ye@r *