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O Cercado em flashes (5): o telefonema para o Expresso a partir da cadeia
Publicado em: 02 Jul, 2015
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Sexta‑feira, 28 de Novembro de 2014

14h06. Bernardo Ferrão está na redacção do Expresso quando o seu smartphone apita. Acaba de receber uma sms. Desbloqueia o ecrã e o que vê é surpreendente.

– Está atento porque te vão ligar de Évora. O indicativo é o 266.

O editor de política do maior e mais influente jornal do País percebe instantaneamente do que se trata. Sócrates quer falar consigo. Na sequência da detenção, Bernardo ligara imediatamente a André Figueiredo, sugerindo que o ex-primeiro-ministro, caso estivesse disponível para dar uma entrevista, a concedesse ao Expresso. Passaram vários dias desde que falou com o ex-chefe de gabinete de José Sócrates. Tudo indica que a resposta chegará pela voz do próprio. Volta-se para os colegas de secção e informa-os da ocorrência:

– O Sócrates vai ligar‑me.

Ia mesmo. Cerca de 20 minutos depois, o telefone toca.

– Olá Bernardo, como vai?

O jornalista não esconde algum constrangimento. É uma situação definitivamente estranha.

– Senhor Engenheiro, como está?

– Estou a ligar‑lhe de um contexto diferente…Agora estou preso…

Apesar da estranheza do momento, Bernardo não perde o bom humor.

– Pois, é público, todo o País já percebeu…

O jornalista percebe rapidamente que o antigo governante está revoltado: «O tom que utilizava era pesado, ainda estava quente, disse-me que a prisão era injusta.» Sócrates prossegue:

– Sei que me quer fazer uma entrevista. Estou a ligar‑lhe para a combinarmos. Como é que quer fazer?

– Deixe‑me falar primeiro com o Ricardo Costa. Só depois podemos avançar definitivamente.

– Está bem, veja então com o Ricardo e ligo‑lhe mais tarde.

Duas horas depois, o telefone de Bernardo volta a tocar. Ricardo Costa recorda o momento: «Fomos logo para a sala de reuniões. Metemos o telemóvel em alta voz e começámos a falar.»

Durante o telefonema, Sócrates renova o interesse em falar ao Expresso. Mas coloca condições: a entrevista terá de ser realizada por duas de três pessoas: Bernardo Ferrão, Ricardo Costa e Nicolau Santos, sub-director do jornal e jornalista especializado em economia. Costa não perde tempo a pensar no assunto.

– Vou eu e o Ferrão.

Por momentos, parece que se recua no tempo e que Sócrates está a ligar do seu amplo gabinete em São Bento. Começa a dar ordens.

– Já falei com o director da cadeia. Agora liguem para a Direcção Geral dos Serviços Prisionais a pedir formalmente autorização. Vêm cá na hora das visitas; eu prescindo de receber pessoas para falar convosco.

Os jornalistas concordam. Vão fazê-lo imediatamente. Mas Sócrates ainda não acabou.

– Quero que publiquem uma declaração minha na edição de amanhã.

É tudo o que Ricardo e Bernardo querem ouvir. Serão eles os primeiros a ter um on do ex-primeiro-ministro – um exclusivo bem à medida do Expresso. Depois de um compasso de silêncio, Sócrates dita:

– Só deixa de ser livre quem perde a dignidade. Sinto‑me mais livre do que nunca.

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