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Fact Checker: a minha crónica no site da Sábado
Publicado em: 07 Mai, 2015
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Meu caro Pedro,

Tenho acompanhado com um misto de tristeza e pavor os ataques selváticos de que tem sido vítima na sequência do elogio público que fez a Manuel Dias Loureiro, português honrado e seu amigo do peito há mais de 20 anos.

Afirmou o que afirmou numa queijaria de Aguiar da Beira. Não escolheu um salão luxuoso da capital. Terá sido esse o seu primeiro pecado – as pseudo-elites lisboetas convivem mal com a sua necessidade quase carnal de frequentar a periferia. O Pedro mora em Massamá e passa férias na Manta Rota. É do povo e vive para ele, como é bom de ver pelas suas generosas políticas sociais, susceptíveis de fazer corar qualquer socialista bonzinho. E isso, num país de deslumbrados, tem um preço.

Mas a si não lhe bastava falar numa queijaria do interior. Foi mais longe e teve a coragem de elogiar um filho da terra que, fruto de uma extraordinária coincidência, se encontrava presente no local. Foi o seu segundo pecado. Podia tê-lo ignorado; ter-se “esquecido” de o mencionar, prevendo que os comentadores do regime – sempre os mesmos… – o acusassem maldosamente de que só se tinha dado ao trabalho de marcar presença porque Dias Loureiro lhe pediu para abrilhantar a inauguração da queijaria de um amigo que, também por coincidência, é seu compadre. Não o fez. E bem. Porque um homem de Estado não se deixa condicionar pelas más-línguas, certo?

E afinal qual é o problema com Dias Loureiro? O facto de ser rico, de viver numa moradia luxuosa, de jogar golfe com Bill Clinton, de passar férias com José María Aznar, de participar em caçadas com a nobreza espanhola quando até há alguns anos pouco ou nada tinha? A circunstância de ninguém saber ao certo de onde surgiu a sua fortuna, de poucos perceberem exactamente qual é o ramo de negócio em que se movimenta? Desde quando a ignorância legitima o insulto, Pedro?

Sim, parece que é verdade que Dias Loureiro foi administrador do BPN e que nessa qualidade terá negociado com um milionário saudita chamado El-Assir, apontado como um dos maiores traficantes de armas do mundo; sim, parece que é certo que o negócio não correu bem e que, quando inquirido a esse respeito no Parlamento, o seu amigo terá submetido a verdade a um pequeno lifting. Mas alguém poderá justamente penalizá-lo por ser um esteta da palavra? Eu digo que não, desde que o faça com a exigência e o método que o Pedro tão justamente sublinhou naquela queijaria simpática.

Não vou roubar-lhe mais tempo, meu caro. Sei que precisa dele para governar. Deixo-lhe uma última reflexão, se me permite: noutro dia, logo a seguir à cabazada (sei que estes termos populares lhe agradam) com que o Futebol Clube do Porto foi brindado em Munique, Ricardo Quaresma, ainda combalido, produziu uma afirmação de raro alcance: “Agora é olhar para a frente e sermos iguais a nós próprios.” O que lhe peço é que faça o mesmo. Até que as elites se cansem. E se calem para sempre.

Atenciosamente,

Fernando

govenantes5

PS: A crónica também pode ser lida NESTE site incrível e maravilhoso









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