HOMEPAGE

Raquel Varela e o horror ao cheiro do proletariado
Publicado em: 07 Jan, 2015
Partilhar: Partilhar no Twitter

raquel3

Observar a intelectual Raquel Varela na televisão a filosofar furiosamente sobre fenómenos tão cavernosos como o sentido da vida, a natureza da espécie humana ou as vicissitudes da existência dos pobres e dos suburbanos é a excitação do momento. Desde que desapareceram do mercado publicações tão marcantes como as saudosas “Gina” ou “Tânia” que o segmento mediático do porno-intelectual se encontrava vazio. Pois bem, a seca terminou e só por isso temos uma dívida de gratidão eterna à actual direcção de informação da RTP.

Pelo alcance que visivelmente começa a ter na vida política, social, cultural e, imagino eu, sexual, da nação, justifica-se uma análise de cariz estritamente científico à personagem.

Comecemos pelo seu nome. Raquel. Ra-quel. Tem origem no hebraico Rahel, foi muito usado pelos judeus durante a Idade Média e, numa sempre injusta tradução literal, quer simplesmente dizer “ovelha”. Ora, não sendo obviamente uma ovelha, Raquel tem, nos últimos dias, sido tratada, nos jornais e nas redes sociais, muito abaixo disso – tudo, imagine-se, por causa das suas sempre ridículas certeiras intervenções no programa “Barca do Inferno”, que estrela na RTPi e onde está bem acompanhada por Isabel Moreira, Manuela Moura Guedes e outra pessoa.

Avancemos para o corpo. O cor-po. Esguia, de porte atlético, Raquel poderia, se o desejasse intensamente, ser uma proletária no Porto de Leixões ou na refinaria de Sines, contribuindo assim para a subida do PIB, para o aumento da alegria dos colegas no trabalho e para o decréscimo da taxa de desemprego, fenómenos que visivelmente lhe roubam séculos de sono. Em vez disso, decidiu emprestar o seu apreciável arcaboiço à investigação académica da temática laboral, conseguindo assim o melhor de dois mundos: é-lhe possível cheirar, mesmo que levemente, o sempre inebriante suor do proletariado sem que precise misturar-se com ele. Não é que Raquel não goste de pessoas simples – mas aprecia-as de banhinho tomado e de perfume refinado. Compreendem-se assim os apontamentos que fez ao cidadão Pedro Passos Coelho, que justamente criticou pelo facto de este usar “fatos de alfaiate de segunda” e de dormir no subúrbio (em Massamá) – precisamente onde também descansa grande parte do suor que Raquel tanto aprecia cheirar mas com que não se deseja deitar.

Agora a palavra. A pa-la-vra. Quem já ouviu falar em orgasmos ao contrário? Ninguém? Não importa, também não é esse o tipo de êxtase que a delirante fervilhante Raquel tão bem desencadeia através do combustível da sua paixão argumentativa. São orgasmos a sério, Deus meu, daqueles intelectuais, dos que apenas a intelligentsia de inspiração marxista a que ela obviamente pertence se alimenta. Quando Raquel diz coisas tão geniais como que a dívida externa “não existe”, que Portugal “não tem um problema de natalidade”, que Álvaro Cunhal “nunca pensou em implementar uma sociedade socialista”, que as empresas que pagam o salário mínimo “deviam fechar” ou que Portugal não tem um problema financeiro, é naturalmente impossível não sentir as amígdalas – as cerebrais, bem entendido – a vibrar de forma descontrolada, estendendo generosamente a passadeira do prazer a todos os que têm o privilégio histórico de a escutar. 

Agora a sério, para resumir, baralhar e concluir: a sorte de Raquel é que estamos no Portugal do século XXI e não na União Soviética dos tempos do anti-intelectualismo pós-revolucionário. É que, se recuássemos a 1917, o seu desdém evidente pelo convívio íntimo com as fragrâncias populares poder-lhe-ia custar uma visita guiada a uma simpática masmorra estrategicamente plantada num infecto subúrbio moscovita.

raquel4

Raquelita, o povo está contigo









2 comentários a “Raquel Varela e o horror ao cheiro do proletariado

Responder a francis_drake Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Current ye@r *