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As reuniões secretas do BES: o meu trabalhinho desta semana
Publicado em: 23 Dez, 2014
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Portugal

O plano de abertura da secção de Política da SÁBADO

25 de Março de 2014, 15h

Cinco cofres arrombados em Cascais

Ricardo Salgado abre a reunião. O BES está mergulhado numa crise profunda. José Maria Ricciardi, um dos membros da CE, rompera com o líder histórico do grupo no dia 7 de Novembro de 2013 durante uma reunião tumultuosa do Conselho Superior, o órgão de cúpula em que os cinco ramos da família falavam informalmente sobre os destinos do grupo. O Banco de Portugal aperta o cerco aos Espírito Santo – as contas do banco estão aparentemente descontroladas. Como um mal nunca vem só, naquela tarde os presentes têm de discutir o que fazer na sequência de um assalto a cinco cofres do balcão do BES em Cascais.

Ao todo, tinham desaparecido várias centenas de milhares de euros – só Carlos Vasconcelos, um dos lesados, reclamava uma verba entre os 230 e os 240 mil dólares (cerca de 190 mil euros). Dos queixosos, a menos prejudicada (perdeu pouco mais de 10 mil euros) foi Maria Valadão, familiar de Ramiro Valadão, um conhecido jornalista e político ligado ao Estado Novo que se destacou como responsável pela propaganda da União Nacional e como director da RTP durante o governo de Marcelo Caetano. Entre os bens que reclamava encontravam-se duas canetas Parker em ouro, um relógio Longines em ouro que pertencera ao seu pai e três condecorações atribuídas ao seu avô, Francisco Valadão: a Grã-Cruz ordem de Cristo, a Grã-Cruz Ordem de Infante Dom Henrique e uma terceira sem Ordem identificada. No momento em que a CE analisa os processos já estão fechadas as avaliações de dois dos clientes. Fica logo decidida a atribuição de uma indemnização até 200 mil euros.

16 de Abril de 2014, 15h

Dinheiro para a família Soares

Uma vez mais com José Maria Ricciardi ausente, o CE não debate o maior dos problemas: a enorme pressão que o Banco de Portugal está a exercer sobre o banco. Em vez disso, discutem-se o processos de  reforma de alguns funcionários, uma proposta de venda de um aparthotel propriedade do BES e… um patrocínio ao Colégio Moderno, propriedade da família Soares. Em causa está a participação de um grupo de alunos no Festival de Orquestra de Jovens de Florença, que se realizaria em Bolonha entre 27 de Julho e 3 de Agosto. “Dado o interesse comercial deste cliente e, em particular, a possibilidade de alargar a actual relação bancária, propõe-se a concessão de um patrocínio no montante de 20 mil euros”, pode ler-se na acta que resultou da reunião.

21 de Maio de 2014, 16h

A diplomata que ensina a violar a lei

Com José Maria Ricciardi de volta às reuniões, começa-se a falar da necessidade de realizar um aumento de capital do banco. Inês Soares, do Departamento de Gestão da Poupança, faz uma apresentação inicial da estratégia que o BES deveria seguir. Todos concordaam. Do mesmo modo, os presentes também convergem na aprovação de um estranho protocolo: o Ministério dos Negócios Estrangeiros português e a Namíbia pretendem que o BES financie a deslocação e a estadia de dois especialistas em numismática à Namíbia para que estes analisem um espólio de moedas encontradas numa nau portuguesa do século XVI afundada ao largo da Namíbia. Num anexo da acta da reunião está um e-mail assinado por Helena Paiva, encarregada de Negócios da Embaixada de Portugal em Windhoek, a capital da Namíbia, e ex-número dois do Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa, a secreta externa portuguesa.

Dirigido a quadros do BES Numismática, o e-mail é escrito num tom pouco diplomático. Referindo-se à necessidade de formar os especialistas locais em numismática, afirma: “A Namíbia pretende desenvolver o seu know-how e a capacidade dos seus peritos de forma a que no futuro museu estes dêem o devido acompanhamento às moedas. Estes três “peritos” não sabem sequer o que quer dizer “numismática”, e provavelmente nunca viram nenhuma moeda com mais de 24 anos de vida…”

A diplomata termina dando um conselho aos futuros visitantes sobre como violar as leis de entrada e permanência na Namíbia: “Não é preciso visto para entrar na Namíbia, desde que informem que vêm em turismo. Logo ninguém poderá dizer que vem para trabalhar nas moedas ou coisas afins. Turismo, apenas. Se falarem mais do que isto, não entram.” Resultado: aprovação pela CE de um valor de 10 mil euros.

 25 de Junho de 2014, 15 h

A fuga em frente

A crise no banco está no seu auge. Neste dia, Ricardo Salgado já sabe que é um homem condenado. Abandonado pela família e pelo Governo, acossado pela comunicação social e pelos credores, o líder histórico do BES, que entretanto já acertara com o Banco de Portugal a sua saída da presidência executiva (passaria a liderar um Conselho Estratégico) está cercado. Decide reforçar as medidas de segurança, fazendo aprovar uma resolução que prevê a atribuição aos membros da CE de carros com vidros especiais, sistemas de comunicação, alarme e localização e sistemas especiais de transmissão ou tracção integral. Para além disso, já possui um forte dispositivo de segurança pessoal.

Embora importante, a questão da segurança é secundária neste momento. Tem de se activar o Plano de Contingência. O cenário de incumprimento por parte da Espírito Santo Internacional é iminente. As dívidas do ramo não financeiro do GES ao BES e respectivos clientes institucionais e não institucionais é gigantesca, impagável. Mas Salgado ainda se encontra em negação. Sublinha a necessidade de separar o BES do GES e de enfatizar a “solidez” do banco junto dos clientes. E segue em frente.

 Dia 2 de Julho de 2014, 15h

Alerta máximo

As más notícias sucedem-se a uma velocidade galopante. O GES perde a capacidade de pagar as suas dívidas. José Manuel Espírito Santo toma a palavra para informar a CE de que clientes da Banque Privée ES começaram a ser confrontados com a situação de incumprimento de dívida emitida por entidades do GES. O que, sublinha, “está a gerar uma natural e crescente preocupação, mormente pela inexistência actual de informação sobre as perspectivas de recuperação dos valores que investiram”. A situação está totalmente caótica. Só à PT, à Amorim Energia e a alguns clientes venezuelanos , a Espírito Santo Internacional deve quase dois mil milhões de euros. “Face ao exposto”, pode ler-se na acta da reunião, “existe um risco elevado de que a situação de liquidez do banco venha a registar uma considerável degradação, superior à registada nos últimos três anos de crise.”. Solução de recurso: activar o Plano de Contingência no seu último estado – o vermelho.

7 de Julho de 2014, 09h30

O martelo do Banco de Portugal

Sentados à volta da mesa, Ricardo Salgado e os seus pares falam de milhares de milhões como quem fala de tostões. A exposição do banco ao drama em que se transformou a área não financeira do grupo é irremediável. O Banco de Portugal notificara a CE da sua intenção de realizar uma auditoria especial, de âmbito forense, às contas do grupo – pagas pelo BES – com o objectivo de verificar se as suas recomendações estavam a ser colocadas em prática. Não estão.

Claro que o artigo continua até ao descalabro final. Mas se o quiserem continuar a ler terão de comprar a SÁBADO 🙂









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