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Os tiros de pólvora seca de Estrela Serrano
Publicado em: 23 Set, 2014
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Primeiro a parte boa. Tenho muita estima pessoal por Estrela Serrano. Acho-a capaz, culta, informada. Sabe muito sobre comunicação, que estuda há muitos anos. Só se pode dizer o contrário por ignorância ou má fé. Foi uma das melhores professoras que tive. Para além disso, possui um sentido de humor extraordinário, próprio das pessoas inteligentes.

Agora a parte má. Estrela Serrano tem um blogue – o Vai e Vem – em que é complicado identificar as muitíssimas qualidades que possui. O sentido de humor, por exemplo. No seu cantinho virtual, ele não vai nem vem – pura e simplesmente não está lá, com grande pena minha. Mas embora esse seja um enorme problema do blogue, não é seguramente o maior. Onde Estrela Serrano se afunda olimpicamente é na obsessão moralista e na paranóia persecutória relativamente aos escassos jornais e jornalistas que procuram verdades difíceis de encontrar e factos complicados de provar.

No particular domínio da perseguição, Estrela Serrano elegeu um alvo predilecto: a Sábado, onde trabalho há quase 10 anos e onde desempenho as funções de editor de Política. Em várias ocasiões apontou o seu canhão moralista às páginas da revista, na ânsia de destruir o seu trabalho jornalístico, usando para isso argumentos quase sempre inquinados, reveladores da desonestidade intelectual de que normalmente acusa os autores das notícias que tanto despreza.

O último disparo foi dado ontem a propósito do caso Tecnoforma. Num post intitulado “Os tiros de pólvora seca da revista Sábado” (por sinal um belo título), Estrela coloca em causa um trabalho que durante uns dias fez as aberturas dos telejornais. Da autoria de António José Vilela, o artigo diz basicamente que o Ministério Público está a investigar o teor de uma denúncia em que Passos Coelho é acusado de ter recebido ilegalmente cerca de 150 mil euros da Tecnoforma entre 1995 e 1999. Ilegalmente porquê? Porque, de acordo com a denúncia, teria estado, durante esse período, em exclusividade de funções no Parlamento. Mais: porque não teria declarado esse valor ao fisco, incorrendo, por isso, num crime de fraude fiscal – e este é, na minha opinião, o facto mais grave de todos os que lá são descritos.

Ontem o Parlamento decidiu emitir uma nota em que afirma que Passos Coelho afinal não estava em regime de exclusividade, alegadamente “matando” uma das suspeitas em causa. Estrela rejubilou com a possibilidade de voltar a municiar o canhão. E investiu barbaramente contra António José Vilela, acusando-o de acreditar levianamente no que “fontes privilegiadas” lhe “sopram” e de nem sequer se ter  dado ao trabalho de confirmar as informações. Ora bem: se, antes de publicar o seu post, Estrela tivesse contactado o António José Vilela, evitaria cair no ridículo em que desgraçadamente se afundou. É que o António, que para além de ser um óptimo jornalista é um tipo simpático e afável, certamente se disponibilizaria a mostrar-lhe as cópias de todos os pedidos de confirmação que remeteu às entidades em causa: gabinete do PM, Parlamento, PGR, Tecnoforma, Tribunal Constitucional.

Com esse contacto, evitaria o duplo ridículo, aliás. É que a manchete do Público de hoje, assinada por José António Cerejo e Paulo Pena – mais dois jornalistas por quem Estrela não terá especial estima – noticia basicamente o seguinte: em 1999, Passos requereu o subsídio de reintegração, de cerca de 60 mil euros, destinado a deputados em dedicação exclusiva. Na altura, apresentou no Parlamento todos os rendimentos declarados ao fisco, para provar a “exclusividade”. Isto sem que tenha feito qualquer referência à Tecnoforma.

Prova-se agora que Estrela se precipitou uma vez mais, lançando de forma irresponsável um manto de desconfiança sobre um profissional e uma revista que fazem da seriedade uma bandeira. Agora é a sua vez de dar o corpo às balas – é que elas vão, mas também voltam, minha cara Estrela. 









3 comentários a “Os tiros de pólvora seca de Estrela Serrano

  1. Pingback: A “exclusividade” do deputado Passos e a quadratura do círculo | VAI E VEM

  2. Manuel

    É preciso ter lata, Fernando Esteves.
    É que a grande questão é essa. O Ministério Público não estava nem está a investigar coisa alguma.
    E é essa promiscuidade entre o Ministério Público e a revista SÁBADO o que está em causa.
    O Ministério Público não devia revelar o teor de uma denúncia anónima cuja matéria não pode investigar.

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    1. M. Marques

      Essa é boa! Mas desde quando? Provavelmente, como vem sendo habitual, isto tudo faz parte do “circo”: denúncia anónima (de factos prescritos há anos); investigação; notícias. Já nos habituámos ao “circo” e seus meandros… Mas aproveitar para propalar, subrepticiamente, que o Ministério Público não pode revelar uma denúncia anónima dum facto tão grave imputado a uma figura pública com as responsabilidades de Primeiro Ministro, apenas porque não vai investigar, prescreveu, é de “cabo de esquadra”. O procedimento judicial pode ter prescrito (o que também constitui uma fraude e um atentado à democracia), mas a idoneidade e rectidão de caracter que se exige (tem de se exigir) a um primeiro ministro ou a outra figura pública qualquer NÃO PRESCREVEM NUNCA. Portanto, por aí não vamos lá. Passem as informações correctas e completas para as mãos dos cidadãos e façam referendo perguntando o que deve acontecer ao P.M. Isso é que era democracia. A justiça não pode (nem quer) actuar mas os cidadãos deviam poder (e querem). Andarem a jogar ping pong com denúncias prescrita, fugas de informação, notícias mistificadoras, contra-notícias ainda mais mistificadoras, é gozarem conosco.

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