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“O Pedro é que abria as Portas todas”
Publicado em: 26 Set, 2014
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entrevista tecnoforma

 

Numa entrevista à Sábado, o seu ex-presidente fez algumas revelações que me ocorre recordar. Vamos recapitular. Portanto:

– Passos abria ou facilitava a vinda de projectos para a ONG

– Passos facilitava o diálogo entre a Tecnoforma e comissários europeus

– Passos disponibilizava-se a viajar para o estrangeiro com dirigentes da Tecnoforma

– Passos apresentava os dirigentes da Tecnoforma a políticos que decidiam negócios que envolviam muito dinheiro

– Finalmente, Passos fazia tudo isto de graça. Sugiro que se derrube a estátua de D. José no Terreiro do Paço e que, em sua substituição, se plante uma do Primeiro-Ministro mais benemérito da história da democracia.

Vejam algumas passagens da conversa, conduzida por António José Vilela:

          – No seu entender, Pedro Passos Coelho queria no CPPC gente com influência para quê?

– Que pudessem de facto, sei lá, movimentar, abrir ou facilitar a vinda de projectos para a ONG no âmbito da formação profissional e dos recursos humanos e que depois esses projectos pudessem ter a participação da Tecnoforma. 

-Volto a perguntar, Passos Coelho sabia que esta ONG era criada com esse intuito? 

      – Tanto é assim, que eu cheguei a ir com ele a Bruxelas para um encontro com o comissário europeu João de Deus Pinheiro [militante do PSD, ex-ministro da Educação e dos Negócios Estrangeiros em três governos de Cavaco Silva e Comissário Europeu entre 1993/2000].

– E foram lá fazer o quê exactamente?

– Fomos lá apresentar o CPPC, o que nos propúnhamos fazer e saber da sensibilidade dele, nomeadamente que possibilidades de financiamentos havia para os PALOPs. E o João de Deus Pinheiro até nos deu logo uma ideia, dizendo que a Comissão Europeia estava a pensar num projecto para Cabo Verde, que era a criação de um instituto para formação de funcionários públicos. E que este instituto deveria servir também para formar pessoas para os outros PALOPs porque os quadros deles da administração pública eram muito deficitários. Disse-nos ainda que seria bom que criássemos um instituto em Cabo Verde e que a Comissão Europeia estava disposta a apoiar financeiramente uma coisa dessas. 

– Esse encontro com João de Deus Pinheiro foi combinado por Passos Coelho, que era então vice-presidente do grupo parlamentar do PSD?

– Claro, eu não conhecia o Deus Pinheiro. 

– Em Bruxelas, reuniram onde?

– Fomos ao gabinete dele, na sede da Comissão Europeia. O Pedro é que o conhecia, o Pedro é que abria as portas todas. 

– E esse projecto chegou a avançar?

– Ainda fomos a Cabo Verde, mas não avançou. Reunimos na cidade da Praia com uns directores do Ministério da Educação, mas acho que eles estavam era interessados em criar pólos universitários e não institutos intermédios de formação profissional. As coisas não funcionaram. 

– Foi a Cabo Verde também com Passos Coelho? 

      – Sim e com um cantor, o Paulo de Carvalho.

– Porque é que ele foi com vocês?

– Isso aí é outra história de que não quero falar. Ele apareceu no aeroporto de Lisboa. Acho que ele foi também para desbloquear, para tentar, mas dá-me a impressão que havia uma segunda agenda entre eles. Em Cabo Verde, depois das reuniões, eles foram depois para outro lado. 

– Já conhecia o Paulo de Carvalho?

– Não, não, só da televisão. 

– Marques Mendes esteve na escritura do CPPC?

– Sim, esteve lá. A única coisa que lhe digo é isto: paguei muitos almoços e jantares. Eu estava com o Pedro talvez de 15 em 15 dias ou uma vez por mês. Ele também aparecia na sede da Tecnoforma, mas era mais em restaurantes. Ou então íamos beber um copo. Ele vivia ainda em Campo de Ourique com a Fati [Fátima Padinha, do grupo as Doce e primeira mulher de Passos Coelho]. 

– Também se encontrava com ele na Assembleia da República?

– [Pausa] Encontrei-me com o Pedro várias vezes no parlamento, acho que era no grupo parlamentar do PSD. 

(…)

– Mas pode dizer-me quem financiava o CPPC?

– Vinha tudo da Tecnoforma. 

– O CPPC tinha um orçamento anual formal? 

      – A Tecnoforma pagava as despesas que aparecessem. As instalações do CPPC eram também na Tecnoforma, pois ficavam na sede da empresa, no Pragal [Almada].

– Ainda não me disse o que é que o CPPC concretizou durante os vários anos em que Passos Coelho lá esteve como presidente?

– Até 2001, só me lembro de um projecto de formação profissional no bairro degradado da Pedreira dos Húngaros, em Oeiras. O projecto nasceu de uma ideia do governo de Cabo Verde [muitos habitantes do bairro eram cabo-verdianos] e a partir de uma reunião qualquer que houve entre o Pedro e já não sei quem. 

– Foi um projecto arranjado por Passos Coelho?

– Recordo-me que houve uma reunião entre nós para definir o que era preciso fazer, mas o projecto precisava também da aprovação do Isaltino Morais, que era o presidente da Câmara de Oeiras. O Pedro desbloqueou isso, fez o papel que se esperava dele. E tivemos uma reunião com o Isaltino Morais, que aprovou o projecto e isso foi essencial para a candidatura a um programa financiado pela União Europeia. 

– Depois de vender a Tecnoforma em 2001, e de Passos Coelho ter sido contratado para consultor e depois para presidente da empresa, a facturação da Tecnoforma aumentou bastante em Portugal. Um dos projectos responsáveis por isso foram as acções de formação financiadas pela União Europeia, como o programa Foral, um caso que está a ser investigado hoje pelo Ministério Público (MP). 

    – Disso já não sei nada.

Quando a Sábado o questionou acerca das remunerações de Pedro Passos Coelho, Fernando Madeira disse: «Eh pá, isso já não me recordo. É um bocado arriscado estar-lhe a dizer e era grave.» O alegado primeiro-ministro era então deputado em regime de exclusividade.









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