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Sobre amor, futebol e sadismo – um dia teria de acontecer
Publicado em: 23 Jun, 2014
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Tottenham Hotspur v Manchester United - Premier League

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Facto: confirma-se, embora apenas parcialmente, a tão falada costela bovina de Paulo Bento – é já uma verdade inquestionável que o seleccionador nacional é capaz de mugir enquanto fala, mas nos jogos não parece possuir vaca alguma. Facto: Pepe teve um musculado AVC durante o Portugal-Alemanha. Facto: a lobotomia de Raul Meireles, concretizada há cerca de dois anos quando foi para a Turquia, apresenta sinais de franco sucesso (parabéns ao artista). Facto: Rui Patrício sofre de uma deficiência do sistema nervoso central que o inibe de pontapear uma pedra de calçada – pedir-lhe que domine um corpo esférico a que se convencionou designar de bola nas sociedades ocidentais, orientais e transcontinentais é um abuso e uma imoralidade. Facto: Ronaldo merecia que Quaresma tivesse ido ao Brasil, para que lhe fosse dado o direito a ter o Mundial que lhe era devido depois da época espectacular que fez no Real Madrid. Facto: os portugueses mereciam que Quaresma tivesse ido ao Mundial para que Ronaldo tivesse o Mundial que merecia porque se Quaresma tivesse ido ao Mundial e Ronaldo tivesse o Mundial que merecia Portugal traria um caneco que nunca mereceu. E assim sofremos. Ontem esguichámos sangue pela alma. Todos. Juntos. Portugueses. Apaixonados. Irracionais, claro.

O grande problema do futebol é o facto de ser um jogo demasiado parecido com o amor. Porque para amar é preciso sofrer e, paradoxalmente, se não amamos também sentimos dor – não aguentamos o vazio emocional, somos uns cabrões de uns meninos. O que nos transporta gloriosamente ao que cientificamente designo de Puta da Quadratura Afectiva do Círculo (PQAC): não há como sermos totalmente felizes; sofremos sempre. E não, a incapacidade para mandar fornicar a PQAC não é um exclusivo de merdosos com o QI de uma minhoca desarticulada. Hemingway, Freud, Edgar Allan Poe, Zezé Camarinha, todos os grandes génios chafurdaram furiosamente na lama emocional – como nós, como desgraçadamente nós fizemos ontem por causa da selecção nacional de futebol.

Não havendo fuga possível à dor, resta escolher se queremos vivê-la amando ou fugindo. E se, ao optarmos pela primeira possibilidade, o fazemos intensa e permanentemente ou somente nos momentos de maior conforto. Amamos Ronaldo em todos os segundos do jogo ou apenas quando faz um golo que nos faz acreditar que Deus existe? Amamos Pepe durante 90 minutos ou apenas quando ele não se encontra em óbvia paragem cerebral? Amamos Hélder Postiga de forma incondicional ou apenas quando ele não se encontra entretido a interpretar tragédias gregas em forma de futebol – sendo que ele gosta de as protagonizar em quase todos os minutos da sua vida desportiva? Amamos a pessoa com quem estamos de forma absoluta e irrepetível ou fazemo-lo porque a ideia de não gostar de alguém, de não estar com alguém, é demasiado penosa para que a aceitemos? Finalmente, acreditamos que as relações devem ser fortes como touros selvagens ou aceitamos que se transformem em contratos pífios, em fenómenos de natureza sócio-contabilistica?

Tudo isto para dizer que podemos escolher. E a escolha não é entre sofrer e não sofrer – é entre sofrer sozinho ou acompanhado. Prefiro fazê-lo com companhia, de forma intensa, incondicional. O que no meu caso, quando aplicado ao futebol, passa por partilhar carinhosamente com os jogadores algumas passagens de clássicos da literatura mundial como Os 120 Dias de Sodoma ou A Filosofia de Alcova enquanto observo atentamente na televisão as desastrosas manobras técnico-tácticas que desenvolvem no terreno de jogo. Amar a sério é isso: ser excessivo, ser violentamente excessivo – no futebol e na vida. Quem se contenta com menos não é um bom português – mesmo que tenha um bigode tão robusto como o de Hugo Almeida. 

 

hugo

Hugo, dás-me – ou, vá lá, emprestas-me – o teu bigode?

 









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