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Duas reportagens de dois jornalistas de excepção
Publicado em: 06 Jun, 2014
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Durante nove anos trabalhei com o Gonçalo Bordalo Pinheiro e com o Miguel Pinheiro na Sábado. Juntos, formaram uma dupla de enorme sucesso na direcção da revista. Foram eles – com a ajuda de uma equipa de fantásticos jornalistas, há que dizê-lo – que conseguiram o milagre da ultrapassagem da Visão nas vendas em banca. Um milagre que aconteceu porque aqui na Sábado foi implementada uma forma diferente de ver o jornalismo. Às coisas básicas que todas as publicações decentes devem ter (isenção, independência, rigor e tal e coiso), acrescentámos-lhe um invulgar culto pela irreverência e pela procura do detalhe. Foi isso que fez – e continua a fazer – a diferença. E é justo dizer que sem eles – sem o Gonçalo e o Miguel – essa filosofia não se teria convertido numa espécie de religião.

Entretanto os dois saíram da revista. A Sábado continua bem e eles, pelos vistos, estão melhores do que nunca. Os dois fizeram, no Observador, aquelas que são de longe as melhores reportagens sobre campanhas eleitorais dos últimos anos na imprensa portuguesa. Têm tudo: isenção, independência, rigor. E depois aquilo que as torna diferentes: a irreverência e o detalhe que distinguem o grande jornalismo. 

Deixo-vos um excerto de cada uma e o link para poderem ver os textos completos no Observador

A VITÓRIA QUE FEZ IMPLODIR O PS

Gonçalo Bordalo Pinheiro

assis

Foto: Hugo Amaral

(…) Dois dias antes, durante uma visita com Martin Schulz ao Chiado, o líder do PS tinha chamado Assis para tirarem uma fotografia. Primeiro posaram os três com António Costa e alguns elementos da JS para os repórteres fotográficos. Mas depois Seguro fez uma sugestão:

– Francisco, vamos tirar uma selfie.

De início, Assis não reagiu e afastou-se. Mas Seguro insistiu e Assis agachou-se a custo, ligeiramente afastado e com um sorriso amarelo.

No dia seguinte, a ideia de Seguro estaria na primeira página do Público. Uns dias mais tarde estaria em todas as ruas do País.

No PS, muita gente sabia que o cartaz da campanha seria a simulação de uma selfie – e por isso a foto de Seguro fazia todo o sentido. Francisco Assis, mais uma vez, não sabia de nada.

Quando ao fim da tarde do dia 8, Assis, Vasco e Afonso chegaram ao Largo do Rato para a apresentação do manifesto socialista para as europeias, sabiam apenas que os candidatos iriam tirar antes uma fotografia em grupo. Mais nada. Estavam atrasados. João parou o carro e Assis foi ter diretamente com António José Seguro. Vasco subiu para o local onde seria tirada a fotografia para o cartaz. A primeira pessoa que encontrou foi uma funcionária do partido que lhe pediu para se identificar. A segunda foi Luís Bernardo:

– Atrasados, pá! A esta hora?! Que falta de profissionalismo!

O consultor de comunicação de Seguro estava preocupado com as horas – era preciso aproveitar a janela que as televisões tinham guardado para os diretos da apresentação do manifesto e não deixar que o sol descesse demasiado. Mas desceu. Quando Assis chegou ao jardim do Palácio Praia, tinha o sol de fim de tarde mesmo de frente para os olhos. Mas isso não o impediu de perceber o que se estava a passar: iam simular uma selfie com todos os candidatos.

A primeira reacção de Assis foi de surpresa. A segunda foi de indignação. Nesse dia à noite, quando estava no carro com Vasco e Afonso, finalmente pôde comentar:
– Vocês viram aquilo da selfie?!
– Sim, vimos.
– Aquilo é uma palermice, uma palermice total! Um absurdo!

Vasco achou que a ideia não era tão estapafúrdia assim. Acreditava que seria uma fotografia para usar nas redes sociais e não num cartaz. Mas Assis estava indignado:

“Aquilo é brincar com coisas sérias! Num momento de crise como este, brincar com coisas sérias?!…”

Afonso achava que não estaria previsto usar a fotografia e que talvez a tivessem feito apenas para desanuviar o ambiente. Assis explicou que teve de ser ele próprio a insistir para que se fizesse também uma fotografia normal. E só depois de feita a foto tradicional é que aceitou esticar o braço e dar a mão ao fotógrafo enquanto este disparava. A seguir largaram a mão um do outro e fizeram mais umas imagens com Assis de braço esticado como se estivesse a segurar num telemóvel. O candidato agachou-se, sentou-se e tentou várias posições diferentes.

No carro, estava irredutível. Iria ligar a António José Seguro naquela mesma noite, a caminho do Porto, e resolveria o problema:
– Vindo dali sei lá se não vão publicar. Vindo dali… Aquilo é uma palermice e temos de impedir aquilo! E já!

No dia seguinte, Seguro mostraria a foto a Assis e à mulher, durante um jantar de campanha, no Porto. Vanda gostou e a selfie acabaria por ser usada nos cartazes.

 O artigo completo pode ser lido aqui

 

A CAMPANHA QUE ANDOU À PROCURA DO “POVO”

Miguel Pinheiro

rangel

Foto: Hugo Amaral

“É muito ridículo!”. Eram 00h32 de dia 7 de maio e Paulo Rangel estava a dar uma gargalhada dentro do seu carro. O Audi A4 preto seguia a grande velocidade para Lisboa quando, ao quilómetro 207 da A1, Gonçalo Villas-Bôas, assessor do cabeça de lista da coligação PSD/CDS às eleições europeias, pegou no iPhone e lhe mostrou a primeira página do Público que chegaria às bancas daí a algumas horas.

Na foto de capa, via-se António José Seguro, Francisco Assis, António Costa e Martin Schulz a tirarem uma selfie no Chiado – o líder do PS tinha a boca aberta, o candidato a eurodeputado estava com um sorriso amarelo e o presidente da Câmara de Lisboa aparecia sentado de forma estranha, como se fosse um lutador de sumo. No banco de trás do automóvel, o social-democrata deu outra gargalhada: “Parece um quadro da Paula Rego!”

Rangel estava bem-disposto. Aquele tinha sido o melhor dia da campanha até ao momento. O PSD acabara de comemorar o seu 40.º aniversário numa cerimónia na Alfândega do Porto e Rangel tivera a confirmação de que o partido realmente o apoiava. Ele só precisava de um sinal, mas teve três.

Um: ficou sentado na primeira fila, que estava reservada aos notáveis e aos incontestáveis. Dois: o vídeo em que aparecia a falar sobre as eleições foi recebido com aplausos (parece evidente, mas não é: as fotografias de Cavaco Silva e Durão Barroso, por exemplo, provocaram um penoso silêncio). Três: quando, no final, Pedro Passos Coelho chamou ao palco os antigos líderes do partido, somou Rangel ao grupo e colocou-o ao seu lado esquerdo, tendo à direita Francisco Pinto Balsemão.

O candidato da Aliança Portugal sabia que aquele era um momento importante. Logo que chegou ao automóvel, pediu que pusessem mais alto o som do rádio, que estava sintonizado na TSF, para “ouvir o que dizem disto”. Tinha sido um dia longo e a viagem não ia ser curta. Às 2h09, no quilómetro 17 da A1, acendeu-se uma luz no painel de controlo do carro com um aviso: “Recomendação de pausa”. Para Paulo Rangel, a advertência não era necessária: já tinha adormecido.

O artigo completo pode ser lido aqui

 









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