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As minhas verdades sobre Jorge Coelho
Publicado em: 06 Jun, 2014
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Desde que lancei O Todo-Poderoso, dezenas de pessoas, conhecidas e desconhecidas, abordam-me com perguntas sobre Jorge Coelho, o meu biografado. Dizem que da leitura do texto não resulta clara a minha opinião sobre ele – e isso é um enorme elogio porque significa que consegui o grau de distanciamento necessário a qualquer obra de carácter jornalístico. Mas, por compreender a sua curiosidade, aproveito para as esclarecer em relação às questões que mais me são feitas. Aqui vai.

 

1 – Sobre o seu carácter

Sim, sei de tudo o que já se escreveu sobre ele (acreditem, sei mesmo). Que é o homem das manobras de bastidores. Que foi o elo de ligação entre o PS e os grupos económicos. Que foi, durante o seu consulado no partido, o orquestrador de manobras políticas maquiavélicas. Que, à frente da Mota-Engil, fez uso dos seus contactos políticos para assinar negócios altamente lesivos para os interesses da nação. Agora aquilo que eu nunca li e que descobri no contacto com o personagem. Claro que Jorge Coelho influenciou decisões políticas nos bastidores. E então, onde está o mal? Churchill fez o mesmo. Napoleão. Clinton. Guterres. Cavaco. Até João Paulo II. Fazer política é isso: influenciar decisões. E isso não é crime. Mao Tse Tung definia a política como a guerra sem derramamento de sangue. Tinha razão. Coelho lutou muito, mas não consta que tenha deixado rasto de sangue pelo caminho. Nem rasto de crime, já agora: apesar dos rumores que circunstancialmente foram sendo disseminados, Jorge Coelho nunca foi constituído arguido, nunca foi acusado ou julgado num processo criminal (coisa de que eu, degraçadamente, não me posso gabar).

Na Mota-Engil mudou o paradigma de gestão: ao contrário do que é normalmente esgrimido pela cartilha gasta e usualmente bafienta dos comentadores do regime, a verdade verdadinha é que Jorge tirou um coelhinho da cartola quando tomou conta da empresa, ao transferir o centro nevrálgico da sua facturação para o exterior. Neste momento, a Mota-Engil sobreviveria sem o mercado nacional. E isso é obra de Jorge Coelho. Ainda sobre o tema Mota-Engil: o caso de Jorge Coelho, em comparação com outros conhecidos, é coisa de escuteirinho. A verdade é que ele entrou para a Mota-Engil apenas sete anos depois de sair do Governo. O período de nojo estava mais do que feito. Pessoalmente vejo com algum cepticismo a transferência de membros do Governo para empresas com quem fizeram negócios na esfera pública, mas também sou sensível aos que dizem que não podemos andar sempre a dizer que os políticos são isto e aquilo, que nunca fizeram nada para além de viver do dinheiro dos contribuintes e depois não aceitar que eles passem a gestores profissionais. É algo esquizofrénico, de facto. Resumindo, baralhando e concluindo: Jorge Coelho tem, como todos nós, defeitos e qualidades. Acertou e errou muitas vezes, como todos nós, uma vez mais – a diferença é que nós podemos fazê-lo sem que ninguém dê por isso. Mas, desculpem-me os anti-coelhistas, não me parece que seja uma pessoa desonesta. Bem pelo contrário: trata-se de uma pessoa estruturalmente bem formada, de boa-fé e preocupada com o seu país.

 2 – Sobre a sua preparação

Sim, também sei de tudo o que já se escreveu sobre o assunto (acreditem, sei mesmo). Que não pensa pela sua cabeça. Que era um mero executor das ordens de Guterres. Que tinha linguagem de mineiros e cavadores. Que outras coisas mais. Lamento desiludir a turba raivosa: Jorge Coelho – e essa foi uma das grandes surpresas que tive nos cinco anos em que convivemos – pensa pela sua cabeça, tem ideias próprias e, quando desce um pouco o nível da linguagem, digamos assim, fá-lo apenas com o propósito de ser compreendido pelo cidadão comum. Mark Twain escreveu um dia que levava mais de três semanas a preparar um discurso de improviso. Coelho falava sempre de improviso. Mas eram improvisos pensados. Hoje não tenho dúvidas de que será uma das pessoas que mais percebem de comunicação política em Portugal – assim de repente não me lembro de alguém ao seu nível. Estudou aprofundadamente a matéria e tem a enorme mais-valia de ter sido um actor político intenso durante mais de 20 anos. Não há muitos que possam dizer o mesmo. Para além disso, é um homem com mundo – adora viajar – e um maníaco da leitura. Quando a maior parte das pessoas ainda está na cama de barriguinha para o ar, já ele leu todos os jornais do dia. É uma máquina trituradora de informação. É também um apreciador de arte – a sua mulher, Cecília, chegou a ter uma galeria -, mantendo relações de amizade com vários criadores conhecidos e menos conhecidos.

3 – Sobre a sua obra

Sim, também sei de tudo o que já se escreveu sobre o assunto (acreditem…). Que não fez nada que se veja. Que se limitou a dar auto-estradas e concessões às grandes empresas. Que não sei quê, não sei que mais. Ora bem. Jorge Coelho fez parte de um Governo que teve imensos defeitos. Havia falta de poder de decisão ao nível do primeiro-ministro (Guterres, apesar de inteligente e preparado, não era um exemplo de liderança), havia ministros que achavam que eram mais importantes do que o Governo (não, Manuel Maria Carrilho, claro que não é em si que estou a pensar), havia ministros que tinham dificuldades em nomear menos de 500 mil pessoas por dia, havia outros que, apesar de competentes, eram razoavelmente autistas, outros ainda praticamente cegos por sofrerem de uma feroz ambição (claro que não me refiro a José Sócrates). E depois havia Jorge Coelho. O homem que tinha de preencher as lacunas deixadas por todos. O ministro da Agricultura fazia dezenas de nomeações de boys? De quem era a cara que aparecia na primeira página do Independente? De Jorge Coelho, claro. Apesar de ser ele o membro do Executivo que menos pessoas nomeava. Jorge Coelho era uma espécie de muralha de aço do Governo. Para além de resolver as questões específicas das pastas que tutelava, era ainda o homem que tratava de olear a máquina, de a levar à revisão, de assegurar que ela não gripava para que todos os seus colegas se concentrassem apenas no horizonte e na paisagem – leia-se na governação. Os resultados não são tão calamitosos como alguns dizem que o foram. Foi nos governos de Guterres que Portugal aderiu à União Económica e Monetária, que foi criado o Rendimento Mínimo Garantido ou que foram inventadas as Lojas do Cidadão (medida implementada por Jorge Coelho, já agora). Claro que também foi feita muita asneira, mas a realidade não é só preta ou branca – há uma zona cinza que tendemos a não querer ver.

4 – Sobre a nossa relação actual

Bom, sobre isto nada li ainda… Trata-se de uma relação de respeito mútuo. Jorge Coelho não gostou de tudo o que foi publicado no livro. Alguns amigos poderiam ter sido mais leais consigo. É a vida: vivendo e aprendendo. De qualquer modo, por acreditar que houve um esforço de honestidade da minha parte, tem consideração pessoal por mim. E o contrário também é verdade. Temos, portanto, uma relação simpática e cordial. Desiludam-se, uma vez mais, os que pensam que estamos de candeias às avessas. Sei que seria bem mais popular, nomeadamente entre a classe jornalística, escrever que depois do meu trabalho Jorge Coelho cortou relações comigo – ou que eu, num ataque feroz de liberdade jornalística, me recusei a voltar a falar com ele. Não é assim: falamos regularmente com a simpatia do costume. E assim continuará a ser, espero eu.

 E pronto, é isto.









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