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A outra noite das facas longas no PS
Publicado em: 05 Jun, 2014
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Portugal

A abertura da secção de Política da Sábado desta semana é um texto da minha autoria sobre o psicodrama em curso no PS. Desci às catacumbas do partido para resgatar a história da guerra sangrenta que há 23 anos abalou os camaradas. No centro da confusão estavam já António Costa e Tozé Seguro, que na altura defendiam posições absolutamente opostas às de hoje – mas é a incoerência que dá charme à política, não é?

O episódio – que resulta na tomada do poder no PS por parte de António Guterres – é contado ao detalhe num dos capítulos do Todo-Poderoso. Deixo-vos um cheirinho:

 

António Guterres ouvia La Traviata na sua casa situada nas Avenidas Novas quando um jornalista do Publico lhe bateu à porta. Queria saber qual era o seu estado de espírito duas horas antes de, na sede do PS, dar o passo mais importante da sua carreira: a apresentação da candidatura à sucessão de Jorge Sampaio na liderança. De jeans e pullover cor de vinho, o quase candidato relaxava ao som de Verdi, o seu compositor favorito, enquanto fazia pequenas alterações ao texto que leria pelas 15h30, naquele que seria o corolário lógico dos seus últimos dez anos no partido. Sempre pensara pela sua cabeça. Nunca seguira cegamente

nenhum mentor. Chegara a sua hora. A sua e a de todos os que o tinham ajudado a desenhar o seu caminho, com Jorge Coelho à cabeça.

Nessa manhã tinha feito chegar ao Largo do Rato o seu pedido de demissão do Secretariado Nacional, libertando-se para a campanha intensa, sem tréguas, que se aproximava. Tinha passado um mês desde que Jorge Sampaio perdera de forma estrondosa as legislativas contra

Cavaco Silva, que conseguiu a sua segunda maioria absoluta. Ainda estava o líder do PS a recuperar o fôlego quando, na própria noite eleitoral, Guterres lhe aplicou uma estocada fatal. «Estou em estado de choque», afirmou, frente a uma turba de jornalistas à procura de sangue.

Estavam abertas as cerimónias para o enterro da liderança de Jorge Sampaio.

(…)

Ao longo da sua história foi sempre com muito entusiasmo – não necessariamente com exagerada alegria – que as várias correntes do PS se bateram entre si. Havia os soaristas. Os gamistas. Os sampaístas (que se subdividiam entre os ex-GIS, os ex-UEDS e os ex-pintassilguistas). Os guterristas. Os sindicalistas. Para todos, chegara de novo a hora de chafurdar na lama, num jogo que se sabia que não seria particularmente elegante. O maior resistente venceria. As clivagens internas eram mais visíveis que nunca, até a nível regional. Fernando Gomes, por exemplo, apoiava Guterres porque se tinha zangado com Sampaio. Já Narciso Miranda apoiava Sampaio porque não gostava de Gomes, seu adversário regional.

Os nove congressos até então realizados tinham sido marcados pelodomínio de um número reduzido de figuras, que se foram aliando ou afastando à medida dos seus interesses e ambições. Gama e Soares estiveram juntos contra Sampaio, Guterres e Constâncio. Mas já estiveram separados quando Gama apoiou Sampaio. Agora havia uma novidade: a disputa entre os dois líderes do ex-secretariado. Um duelo de titãs de contornos razoavelmente imprevisíveis. No instante em que Guterres lançou a sua candidatura só havia uma certeza garantida: a de que no dia seguinte ao congresso o PS seria o partido mais dividido da sociedade portuguesa.

Os dois candidatos tinham agora de angariar autarcas, líderes de secções, concelhias e federações para a sua causa. Há muito que Guterres tinha as suas tropas no terreno. Ele era o verdadeiro homem do aparelho. E a seu lado estava agora o seu melhor aluno, aquele que

lhe sucederia e lhe multiplicaria o peso no PS profundo: Jorge Coelho.

A reacção dos sampaístas foi violenta. Em entrevista ao Publico poucos dias depois do avanço de Guterres, António Costa, líder da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) acusou os guterristas de traição, por alegadamente terem começado «a contar espingardas»

ainda antes do desastre eleitoral. Tinha razão. Há muito que Guterres, Coelho ou mesmo José Sócrates viajavam pelo país a medir o pulso aos seus apoios, para que quando chegasse o momento nada falhasse.

(…)

Antes de partirem para a guerra, Guterres e Coelho tentaram construir pontes com Sampaio. Um dia, na Assembleia da República, Jorge Coelho interpelou-o.

– Jorge, não devias candidatar-te. Vais perder e isso é desnecessário. Chegou a vez do António. Quando te candidataste convenci-o de que era a tua vez; agora acho que é a dele porque perdeste as eleições e está na hora de mudar.

O braço-direito de Guterres não podia ser mais claro: se Sampaio avançasse era derrota na certa. Mas este mostrava-se inflexível.

– Eh pá, as pessoas que me apoiam acham que tenho obrigação de ir a este combate. Não posso recuar.

Jorge Coelho fez tudo para evitar uma guerra fratricida dentro do PS. A dada altura teve praticamente fechado um acordo que passaria por um – António Guterres – ser líder do partido e candidato a primeiro-ministro e outro a Presidente da República. À última hora

tudo foi por água abaixo.

A campanha interna foi longa. Durante cerca de dois meses e meio Guterres e Sampaio correram o país. O primeiro estava, claro, na linha da frente. Tinha tudo para vencer. A derrota de Sampaio nas legislativas fragilizara-o brutalmente. Naquele momento, o presidente da Câmara de Lisboa continuava um touro, como o definira António Pinto Leite por ocasião das eleições autárquicas – mas estava perdido na arena à espera do golpe de misericórdia.

(…)

A tomada do poder estava consumada – faltava apenas oficializar a mudança em congresso. Guterres não tem dúvidas sobre a importância de Jorge Coelho na sua ascensão: «O Jorge foi fundamental para a minha vitória. Já nessa altura era a pessoa mais próxima de mim no PS.» Na sua primeira entrevista como líder virtual do partido, o socialista foi lapidar sobre o que se seguiria: «Pretendo rejuvenescer profundamente o Secretariado Nacional, o órgão fundamental de decisão política.» Um recado amargo para todos os que, numa campanha

duríssima, lhe tinham feito frente – as suas cabeças iam começar a rolar. E um sinal inequívoco de uma nova realidade: um novo xerife acabara de chegar à cidade.

 

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