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A minha crónica a partir da China: A Longa Marcha – Dia I
Publicado em: 14 Mai, 2014
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Xangai, a cidade tóxica

 

 

Todos os dias, cerca de 500 portugueses fundem-se com os 23 milhões de habitantes de Xangai. Há a Catarina, uma arquitecta com 30 anos que não conseguia emprego em Portugal. Há também o Luís, 31 anos, que trabalha no departamento de marketing de uma empresa de vinhos. E há ainda o Nuno, 28 anos, um licenciado em mandarim que em Portugal engrossava as filas do centro de emprego. E existem os outros 497 que todas as manhãs mergulham violentamente na nuvem espessa de poluição que paira sobre a segunda cidade mais populosa da China. Alguns usam máscara na rua. Sabem que vivem uma aventura tóxica – e não só no campo atmosférico. Em Xangai não há Facebook. Séries televisivas como “The Good Wife” ou “NCIS” foram proibidas – e “The House of Cards” já está sinalizada para abate. Não há Instagram nem imprensa livre. Não há YouTube. Há ordem, disciplina e previsibilidade. Aqui todos sabem que amanhã será um dia igual ao de hoje: o país crescerá a taxas pornográficas, o Partido Comunista continuará a vender ilusões, os casais de noivos passearão às dezenas à beira-rio em busca do melhor ângulo fotográfico e a indústria de parafernália sexual continuará a ser a mais criativa do mundo – a última invenção é um vibrador tão espectacular que, quando beijado, proporciona, segundo o produtor “sensações únicas”. É esta previsibilidade, a par de uma dose saudável de aventura, que os portugueses encontram aqui e que lhes falta em Portugal, onde a credibilidade das palavras do Primeiro-Ministro está ao nível da de um tarólogo na pré-reforma. Há um provérbio chinês que diz que a má companhia torna o bom mau e o mau pior. Os 500 portugueses em Xangai, quase todos altamente alfabetizados, quiseram escapar a uma existência vulgar e imprevisível. Mesmo pagando o preço da sua liberdade. Quem pode condená-los?

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