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A minha crónica desta semana no Record
Publicado em: 05 Mar, 2014
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PauloFonseca

Carta a Paulo Fonseca

Caro Paulo,

Obrigado. A sério. Por tudo: pelos golos que, durante os longos meses em que a lideraste, a equipa não marcou, pelo futebol que não praticou, pelo talento que desperdiçou. Agradeço-te, por exemplo, por nunca teres tido a iniciativa de fazer da chama de Quintero, o melhor e mais promissor jogador do plantel, o pólo inspirador da equipa, assim como te estou grato por nunca teres exibido a inteligência suficiente para compreender que Varela é um caso perdido.

Estou-te igualmente reconhecido por não teres percebido que Lucho Gonzalez não é, nunca foi e nunca quis ser um número 10, por teres tratado tão bem de o esvaziar enquanto jogador – e olha que não era fácil. Mais: tenho de te tirar o chapéu por teres descoberto tão tarde – e de forma tão tímida – o talento de Carlos Eduardo (só mesmo tu, Paulo…) e, claro, por teres passado ingenuamente ao lado de Kelvin, aquele miúdo com penteado estranho que no ano passado nos deu um campeonato que não merecemos ganhar.

A minha gratidão é infinita. A sério, não encontro palavras para exprimir o bem que me fizeste por nunca teres encontrado uma solução estável para o meio campo, por teres andado durante toda a época a fazer experiências que só fazem sentido no planeta muito particular em que habitas. A tua capacidade para não tomares decisões sobre o onze titular do Porto chegou a ser muitas vezes comovente. A manifesta fragilidade táctica que sempre evidenciaste foi uma bênção – sim, leste bem, uma bênção.

Sabes por que te agradeço? Porque estas foram as razões que motivaram a tua saída. E tu tinhas de sair. Porque no Porto convivemos de forma razoavelmente civilizada com a falta de bom senso, com a ausência de visão estratégica ou até com a carência de conhecimentos tácticos ou, enfim, geográficos. O que nos repugna mesmo é a falta de coragem, Paulo. Quando um homem sente medo, o seu cérebro envia sinais para o sistema nervoso, para que prepare uma resposta que reequilibre o corpo. Este, por sua vez, acciona um mecanismo complicado que passa por libertar rapidamente adrenalina, a substância que irá combater os impulsos nervosos. Depois disso, o que acontece é uma luta corpo a corpo entre o pânico e a adrenalina. Desde que pisaste pela primeira vez o relvado do Dragão que o teu cérebro tem sido palco de lutas sem fim. O pânico tem sempre vencido. Ora, um treinador que lidera o Porto não pode dar-se ao luxo de ir tantas vezes ao tapete porque o seu medo é contagioso: a dada altura, também são os jogadores que tremem e a bola passa a queimar nos pés. O resultado é aquele que vemos. E o que vemos não é bonito, pois não? Por isso, Paulo, obrigado. E boa sorte para as guerras que se seguirão.

 

 

Para os que desejem ver a crónica no site do record, basta clicarem aqui.

 

 









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