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Carta a Dora
Publicado em: 21 Fev, 2014
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Dora. Desculpas-me que te escreva? Pensei muito antes de o fazer – bem mais do que é hábito em mim, um refém crónico de impulsos bárbaros e tantas vezes destituídos de sentido.

Dora. Não quero que me interpretes mal. Não quero que penses que o faço hoje, logo hoje, porque estou com pena de ti, porque, tal como milhares de portugueses, vi há pouco no site do Correio da Manhã um conjunto de imagens em que surges, despida de glamour, a trabalhar num restaurante do Mc Donalds.

Dora. Escrevo-te para te dizer que a farda do Mc Donalds não te assenta particularmente bem – não assenta a ninguém. Mas faço-o também para te segredar que isso não interessa. Lembras-te das botifarras ortopédicas que usaste no Festival da Canção de 1986? E levaste o caneco, não foi?

Querida Dora. Para mim, não importa a forma como te vestes – ou como te despes (e já o fizeste tão bem). Não importa se estás debaixo dos holofotes da glória ou na penumbra das luzes de baixo consumo do Mc Donalds. Importa-me que sejas um exemplo de dignidade. E a dignidade pode ser tão sexy como o corpo mais sensual. Trabalhar para viver não é uma descida aos infernos, como muitos têm classificado a tua opção. É, pelo contrário, um salto moral que te distingue. Ao ver-te sorridente a servir hambúrgueres percebi que estavas confortável com a tua decisão. Vinte e oito anos depois de iniciares a caminhada em direcção ao estrelato, tiveste a coragem de voltar a ser simplesmente Dora Maria Reis Dias de Jesus. Regressaste à tua condição de  humana. E então?

 

 

 

 

dora2

Dora…

Paparazzi - A cantora, Dora a trabalhar no McDonalds na Avenida de Roma em Lisboa.

… e Dora Maria Reis Dias de Jesus









4 comentários a “Carta a Dora

  1. Ana Maria

    Aquela loja não é o McDonalds e nem aquela farda é do McDonalds. Não sei de onde é, mas a reportagem do Correio da Manhã falhou completamente na identificação. Terá sido de proposito?

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    1. Sofia

      É sim. Se reparar na chávena, diz McCafé e na saia/avental tb. É da parte da cafetaria do McDonalds.
      Pormenores à parte, também acho que é um trabalho como outro qualquer. Quem precisa, trabalha onde há emprego e não fica encostado no sofá à espera que apareça o trabalho ideal. Enquanto esse não aparece, faz-se o que se pode.

      Responder

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