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Inquéritos Pedantes a Pessoas (fascinantes) – António Sala
Publicado em: 27 Nov, 2013
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Ora bem: o que escrever sobre António Sala? Podia inventar milhões de carateres sobre o seu estrondoso, o seu mítico e saudoso bigode, mas tudo soaria a pouquinho, tendo em conta a imensidão do monumento que Sala ostentou durante tantos anos e que hoje nada mais é do que uma memória nostálgica de um bem perdido. Mas prefiro centrar-me no essencial. António Sala é um dos maiores e mais completos comunicadores portugueses das últimas décadas. Respondeu com simpatia ao convite do Alter Ego e fê-lo em grandíssimo estilo. Ora leiam: 

 

Na sua obra, Sigmund Freud fala em duas pulsões que estão permanentemente em conflito no cérebro humano: Eros, uma pulsão de carácter sexual que nos empurra para a vida e para o prazer; e Tanatos, a pulsão da morte que nos arrasta para a auto-destruição. Qual delas é mais presente em si?

Durante o arranque, crescimento e estádio adulto da minha vida, a primeira pulsão Eros, liderou, comandou a seu bel prazer, e ganhou praticamente em roda livre, todos os conflitos do meu cérebro. De algum tempo a esta parte, bate-se renhidamente com Tanatos, conseguindo ganhos e perdas. Espero que consiga ir adiando – para o mais tarde possível –  a sempre injusta vitória, que de forma viciada esta segunda pulsão tem sempre garantida. Mas, Eros, enquanto tiver armas – sejam elas quais forem – não cederá.

 

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Já que falamos de Freud, acha ou não que Pedro Passos Coelho teria claramente algo a ganhar se fizesse psicanálise?

Poderia ter algo a ganhar, mas não sei se a Troika o consentiria. Duvido muito.

Concorda com a seguinte citação de Aristóteles: “O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra”?

Concordo. E julgo que Aristóteles a colocava de forma muito precisa, filosofando nos desempenhos da mais antiga profissão do mundo. Mas também pode ser adaptada a mais alguns ofícios.

Comente a seguinte frase de Vinicius de Moraes: “As feias que me perdoem mas a beleza é fundamental”.

O branco mais negro do Brasil, além de enormíssimo poeta, era altamente sabido. Muitas, mas mesmo muitas belas lhe devem ter sabido agradecer e querido demonstrar que ele estava certo. E muitas feias gostosas se terão também encarregado de lhe provar, que ele estava bem errado. Há poemas e frases que muito alimentam a vida dos seus autores. E Vinícius, deve ter sempre comido muito fruto das suas evocações de arte, à sombra da inspiração.

Óscar Wilde defendia que o mérito de alguém pode ser medido através do número de pessoas que a invejam. Concorda com a formulação? Em que medida pode ela aplicar-se a si?

Concordo plenamente. Aliás sou um exemplo disso. Ninguém me inveja, e por isso mesmo o mérito em mim pode ser medido em escassos milímetros e com lupa.

 

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Considera ou não que a luxúria é um pecado capital excessivamente valorizado?

Todos os pecados capitais são extremamente valorizados. Mais do que isso, estão muito inflacionados. Apoio um movimento universal para a sua desvalorização imediata. Tal e qual  como com as taxas de juro.

Que leitura de Inverno sugere aos seus inimigos?

Sem dúvida que um dos meus livros. O ultimo é a minha autobiografia, chama-se “Memórias da Vida e da Rádio dos Afetos” ou então a partir de Dezembro o meu novo livro “António Sala – Entrevistas” com vinte e cinco, das mais de meio milhar de conversas que tive ao longo de doze anos, nas manhãs de Sábado da Renascença. Sugiro qualquer dos meus livros, aos meus eventuais inimigos, e espero que logo de seguida, eles sugiram também essas mesmas obras aos seus inimigos. Esta deve ser uma cadeia de ódios, que a minha Editora pensa só deve ser quebrada ao fim de 30 edições. Pelo menos…

Em teoria, se tivesse de escolher entre trabalhar num filme com Luchino Visconti ou Steven Spielberg, optaria pelo neo-realismo do primeiro ou pela loucura criativa do segundo? Porquê?

Escolheria trabalhar com o Manuel de Oliveira. Sei que seria um bom ator nas cenas de silêncios e planos intermináveis, ou mesmo um razoável guionista das mesmas. Declinaria o convite dos dois mestres sugeridos, a favor do nosso veterano mestre.

 

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Acha ou não que o cinema pornográfico é injustamente ignorado pela crítica especializada?

Acho que é injustamente ignorado. Há um nítido preconceito, para com esse tipo de cinema. Os críticos – na minha modesta opinião – dão pouco valor a filmes que exigem dos seus intervenientes, esforço, ranger de dentes, dedicação, suor e dramatismo. Os críticos não valorizam tecnicamente os planos apertados, os movimentos abruptos, o improviso dos corpos e o sublimar dos desejos. Não gostam de um cinema que dá oportunidades à juventude. Que dá sempre primeiro plano à mulher, num mundo em que ainda nem sempre isso acontece. Os críticos não gostam de guiões com final feliz. E este tipo de cinema só sabe terminar as suas histórias, deixando todos muito satisfeitos e exaustos de felizes. Os críticos têm imensos preconceitos com tudo isto. Alguns se calhar não lhe fazem critica, porque o mais certo é não serem especializados no género e nestas matérias. Mas aí, digo eu, podiam receber formação apropriada. A não ser que não gostem mesmo. Pronto, estão no seu direito. Mas é pena!

 

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A receber um prémio…

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…na capa de um disco









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