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Sobre a berlaita de valter hugo mãe e as questões filosóficas que ela coloca
Publicado em: 11 Out, 2013
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a questão é pertinente: o que leva um gajo a posar como veio ao mundo na capa de um livro? hoje, a propósito de valter hugo mãe (assim mesmo, com minúsculas), que ilustrou a capa de uma das suas magníficas obras com uma foto sua de berlaita ao léu, debatemos o caso aqui na redacção. a doutrina dividiu-se: alguns achavam bem – vende mais, um homem tem de se assumir, um gajo não deve ter vergonha do seu património -; outros achavam mal – que vergonha, ainda se tivesse um coiso de jeito -; todos achavam estranho. a minha chocante superficialidade inibe-me de explicar devidamente o fenómeno, mas socorro-me de um conhecido filósofo especializado na natureza humana – woody allen (assim mesmo, com minúsculas), que um dia disse qualquer coisa como isto:  “o homem explora o homem e por vezes é o contrário”. pois bem: parece-me que ao fazer a sua escolha o valter, cuja obra obviamente desconheço, quis parasitar aquele que para si será o seu bem mais precioso: o seu nobre instrumento, como o definia marlon brando (com minúsculas, sim senhor); o seu mais que tudo, o seu canivete, mastro e badalo; a sua piriloca, seringa e bandeira – uma bandeira curta, mas ainda assim bastante digna e com apreciável sentido de Estado. valter hugo mãe já confessou a sua paixão por si mesmo e pela sua obra. tinha 24 anos quando pecou pela primeira vez com um livro de poemas da sua autoria. a confissão foi feita numa notável entrevista ao jornal i: “pu-lo ao meu lado [na cama] um pouco entalado na almofada e passava a noite toda a acordar, a olhar para ele. fiz isso outra vez quando saiu o meu primeiro romance”. Disse mais: “se é verdade que os livros são gente vou exigir que a lei, já que se podem casar pessoas do mesmo sexo, que se possam casar pessoas com livros independentemente de os livros terem sexo”. a panóplia de interpretações que esta afirmação de inegável profundidade de campo analítico coloca é de tal modo colorida que nem me atrevo a começar a especular. Há outra explicação para a nudez do artista: o facto de valter hugo mãe (com minúsculas), nascido Valter Hugo Lemos (com maiúsculas), abominar tudo o que é gordura. será por isso que em vez de maiúsculas só usa minúsculas e que poupa em vírgulas, parágrafos e pontos finais. será também por isso que na capa da sua obra se libertou dos trapos que lhe corrompiam a pele. profunda decisão, apenas ao alcance de espíritos do seu calibre. Eu, a maria henrique espada, o vítor matos e o nuno tiago pinto, que tentámos sem sucesso discutir com seriedade, não chegámos a conclusões definitivas. talvez porque nos falte a agilidade mental que valter notoriamente possui. mas como dizia baudelaire, poeta que seguramente o bom do valter apreciará, o público é, relativamente ao génio, um relógio que se atrasa. O tempo trar-nos-á a virtude. Aguardemos, então. 

 

valter









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