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Uma entrevista que vale a pena ler
Publicado em: 09 Set, 2013
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Já foi feita há algum tempo mas só ontem tropecei nela. A entrevista que Lucy Pepper, directora da revista Papel, uma excelente revista semanal online que poucos conhecem, é tão boa, tão boa, mas tão boa que se torna intemporal. Deixo-vos algumas passagens. E recomendo vivamente uma visita ao site. Basta clicarem aqui.

Os britânicos

Lucy Pepper – Miguel, queria falar contigo de várias coisas… do teu lado britânico por exemplo.

Miguel Esteves Cardoso – Achas que é britânico ou que é inglês?

LP – Se calhar é inglês….

MEC  – É que isso é uma das coisas… achas que eu tenho alguma coisa de escocês ou galês? Acho estranho quando dizem “very british” não há “very british”. A minha mãe é completamente inglesa e não gosta nada dos escoceses. E eles não gostam dos ingleses e sobretudo não gostam nada da minha mãe. Os ingleses acham que os galeses são pathetic e uns rústicos; e por outro lado, os galeses com quem andei na universidade detestam os ingleses. E mesmo entre estes há uma divisão: eu estudei no Norte, em Manchester, e eles odeiam os do Sul. Aquela coisa das classes sociais… Uma pessoa vê o desprezo, por exemplo, na série “Shameless”, que eu adoro, e percebe-se isso tão bem em Manchester. Depois, na Cornualha acham que são a civilização mais antiga, como os bascos. É uma boa ilusão, tal como a família real: a rainha tem um nome alemão compridíssimo, o Winston Churchill é que mudou para Windsor, é um rebranding. Por causa da Diana, os príncipes Harry e William são os primeiros que não são 100% alemães, são metade ingleses. Até o príncipe Filipe fala alemão e as outras famílias tratam-nos como the Germans, e eles conhecem-se entre eles como The Firm. Viste aquele documentário sobre a rainha, Lucy?

LP – Não

MEC – É tão giro. Ela tem um daqueles aquecedores two-bar heaters, mesmo forreta. Anda sempre com a mala…

LP – É mesmo uma velhota sensata.

Célia Pedroso – Com os cães…

MEC – E sempre grumpygrumpy…  E essa percepção que os portugueses têm dos britânicos é pois muito…

LP – Errada… Achas que nós, que temos um lado inglês, vemos Portugal de uma maneira completamente diferente?

MEC – Sim, com mais amor. Acho que há uma história de amor entre os dois países. Os portugueses gostam muitos dos ingleses e os ingleses dos portugueses.

Quando fui para Inglaterra tinha 19 anos, estive lá até aos 26 e a coisa que mais me espantou foi fairness.  Não há tradução.  Os professores podiam odiar ou não gostar de nós, mas eram sempre fair. É tão bom isso, uma pessoa pode não ser o que o professor quer, mas depois na avaliação ele era completamente fair. Eu não tinha dinheiro e precisava de uma bolsa para continuar lá no segundo ano; achava que não tinha hipótese, só tinha dinheiro para pagar as fees do primeiro de ano, pensei logo ‘sou português com certeza que não me vão dar a bolsa com tantos ingleses aqui’ mas deram-me!

Outra coisa: lá não há Bilhete de Identidade, acreditam no que nós dizemos. Se a pessoa disser a um polícia que se chama….

LP – …Winston Churchill…

MEC – Isso, a pessoa pode dizer isso abertamente a gozar e eles não podem fazer nada…

CP – Isso é muito libertador…

MEC – É libertador.

PORTUGAL, os portugueses e os ingleses

CP – Dizias naquela entrevista ao Rui Ramos para a RTP, em 2006, que os portugueses nunca estão felizes, estamos sempre infelizes com qualquer coisa – o teu pai dizia até que tu eras como um turista.

MEC – Sim, o meu pai dizia isso e eu achava nessa altura em que dei a entrevista que ele tinha um bocadinho de razão, de eu ser um turista. Só que, eu voltei de Inglaterra quando tinha 26 anos; agora tenho 58 anos, já se passaram 32 anos, seguidos, de eu viver em Portugal. Acho que se calhar ele é que não tem razão, se calhar vale mesmo a pena viver cá.

LP – Depois desses anos todos perdes esse olhar de ser diferente. Eu vejo por mim, depois de estar cá 5 anos, percebia tudo de Portugal….

MEC –  Nos teus desenhos percebe-se que ainda estás com o ar de observadora de quem acaba de aterrar.









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