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A minha crónica de hoje no Record
Publicado em: 05 Set, 2013
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Em Portugal o talento é, provavelmente a par da luxúria, o pecado – sim, o pecado – mais penalizado. Compreendo que se condene a luxúria extrema – admito o embaraço que seria viver numa sociedade em que um Marquês de Sade salta de sobretudo aberto em cada esquina. Mas confesso ter mais dificuldade em entender a espécie de ghetto em que tantas vezes são enfiados os que se destacam pela diferença, pela fuga à norma. A obsessão insana com a uniformização é a maior deriva totalitária dos tempos modernos. Está presente em tudo: na moeda europeia, que tem de ser única; na ortografia dos países de língua oficial portuguesa, que tem de ser igual; até no tamanho das maçãs, dos morangos ou dos tomates dos países da União Europeia, que não pode divergir da média. E nem o futebol escapou a esta ditadura da mediocridade.

No passado fim-de-semana quem gosta de futebol teve o privilégio de assistir a exibições notáveis de dois jogadores cujo génio tem sido estranhamente escondido. Sim, falo de Quintero e Markovic. O primeiro, provavelmente o jogador mais talentoso que passou pelo Futebol Clube do Porto desde Ricardo Quaresma, fez em meia-hora o que os seus colegas não conseguiram no resto do tempo: desbloqueou um jogo que estava complicado. Não foi a primeira vez esta época – aliás, é o que sempre faz nos escassos minutos que lhe são dados. Apesar disso, Paulo Fonseca insiste em diminui-lo. No final do jogo afirmou qualquer coisa como isto: “Quintero está a fazer um caminho progressivo de adaptação.” Ora, tenho uma notícia para Paulo Fonseca: quem tem de fazer “um caminho progressivo de adaptação” é a sua equipa em relação a Quintero e não o contrário. As grandes equipas montam-se em redor dos seus jogadores mais geniais. O Real de Mourinho estava construído em função de Ronaldo. O Barcelona gravita à volta de Messi. O Futebol Clube do Porto tem de ser desenhado para Quintero.

 

 

 

O que se aplica a Quintero aplica-se a Markovic, um artista da bola que Jorge Jesus também insiste em guardar para si, revelando-o apenas a espaços. Sim, é verdade que o rapaz só tem 19 anos e que, por isso, talvez possa não ser um portento a compreender as palestras sempre certeiras do mestre da táctica. Mas caramba, estamos a falar um talento como o Estádio da Luz não via desde o Rui Costa – o golo que Markovic marcou  em Alvalade define um jogador. Quem não o vê pouco ou nada percebe de futebol.

 

 

 

Resumindo, baralhando e concluindo: ou Paulo Fonseca e Jorge Jesus percebem rapidamente que os futebolistas não podem ser tratados como maçãs, morangos ou tomates; ou correm o risco de ficarem para a história como os senhores que um dia, apesar de terem Quintero e Markovic no plantel, só os metiam a jogar a espaços. E nenhum deles merece tão pobre destino.

 









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