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As cartas que me enviam – I
Publicado em: 20 Mai, 2013
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Ao longo de quase 20 anos de profissão (concordo: talvez seja imprudente partilhar esta informação dolorosa) os leitores têm sido generosos comigo. Enviam-me de tudo. Cartas a insultar-me. Cartas a elogiar-me (sim, tenho uma ou duas). Cartas a insultar outros que não eu. Cartas a elogiar outros que não eu. Cartas com fotos. Cartas com cópias de cheques de origem alegadamente corrupta. Cartas com peças de lingerie – calma, não acreditem em tudo o que escrevo. Emails com ameaças de morte. E-mails com declarações apaixonadas. A verdade é que os leitores não são estúpidos – e parece-me que as declarações apaixonadas são um indício extremamente inequívoco desse facto. Escolhem os seus alvos dentro dos jornais e atacam-nos com informação, muitas vezes de forma anónima. A maior parte do material é para mandar para o lixo, mas aqueles 5% que se aproveitam são boas notícias.

Recordo-me de muitas coisas ridículas que já me enviaram. A maior de todas foi uma cópia de um artigo de opinião sobre Santana Lopes que assinei no Independente. A crónica não era simpática para o menino chorão; a carta não era simpática para mim. Fair enough. Ao abri-la, verifiquei que o meu artigo tinha sido utilizado para fins, digamos, pouco ortodoxos. Certamente devido a uma aflição súbita, um leitor socorreu-se da minha prosa para substituir um utensílio que normalmente é usado na casa de banho – o que, convenhamos, confere toda uma nova dimensão à utilidade do trabalho jornalístico. Serviço público, é disso que estou a falar.

A partir de hoje deixo-vos alguns desses tesourinhos deprimentes. Começo por uma carta que um anónimo fez chegar à Sábado a propósito de um artigo que assinei sobre João Cordeiro, líder da Associação Nacional das Farmácias. Nele, o líder da ANF era apresentado, grosso modo, como uma espécie de mafioso (esta minha tendência para o exagero) com ligações perigosas capazes de fazer perigar a paz no mundo. O início da carta até é promissor: “[ao ler o artigo] constatei de imediato que o sr. Jornalista Fernando Esteves escreve destemida e desassombradamente.” Impossível ser mais rigoroso. Mas depois veio a verdade cruel: “O sr jornalista é porco, aldrabão e difamador. Eu só me satisfaria dando-lhe uma valente marretada no centro da testa.” Enfim, vejam.

 

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Isto continua mas não vale a pena bater mais no ceguinho

Duas notas importantes:

1 – Por motivos óbvios, a identidade dos autores das cartas ou denúncias será sempre protegida. A única excepção serão as ameaças – até prova em contrário acredito que os cobardes não merecem protecção.

2 – As denúncias que divulgo não deram origem a notícias. Ou seja, para todos os efeitos não correspondem à verdade.









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