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A minha crónica de hoje no Record
Publicado em: 16 Mai, 2013
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Caro Jorge Jesus,

Sei que estás triste com o que aconteceu ontem. Que acreditas que não merecias esta maldição de contornos sádicos. Que estás arrasado por, nesta fase da tua vida, teres perdido um jogo que há poucos anos talvez não acreditasses que virias a disputar. Tens 58 anos – quase 59 – e só há quatro entraste num clube que te permite sonhar. Pelo caminho sofreste como todos os heróis têm de sofrer. Começaste no Amora, com quem foste campeão – da 3ª divisão, mas ainda assim campeão. Logo a seguir, deste uma alegria à gente de Felgueiras, quando fizeste subir a equipa à 2ª divisão B. Prosseguiste, durante anos a fio, em clubes menores. Tiveste algumas tardes de glória e muitos dias de tristeza. Desceste duas vezes de divisão. Morreste e ressuscitaste com a mesma rapidez com que o Benfica passou ontem de mais que provável vencedor da Liga Europa a injusto derrotado.

Esta época, que devia ser a da tua coroação, aquela que te daria um sinal de que todas as noites frias que passaste em Felgueiras; todas as tardes de sofrimento que viveste em Moreira de Cónegos – onde desceste de divisão com o clube com quem jogarás a tua última cartada deste campeonato no próximo domingo -, não eram, afinal, passagens rumo ao calvário, acaba por ser, se tudo correr como é expectável, a da negação do teu encontro final com um destino que provavelmente já merecias.

Sei que já escrevi algumas alarvidades sobre ti. Brinquei com esse teu estranho hábito de mascar pastilhas como se não houvesse amanhã. Dizem que te acalma, mas eu não acredito. Já me referi também em termos pouco simpáticos às tuas, digamos, dificuldades com a língua portuguesa. Compreende-me: a língua é o meu instrumento de trabalho e ver como torturas a gramática com a descontracção com que um radical islâmico massacra um espião americano nem sempre é um exercício agradável.

 

 

Independentemente disso, meu caro Jorge, quero dizer-te hoje que, ao contrário do que terás pensado ao minuto 92 do jogo de Amesterdão, o teu encontro com o destino continua em aberto. É verdade que tens 58 anos e que não terás muitos mais de profissão. É verdade que deve ser penoso pensar que tens de começar tudo de novo. Mas quem suportou tantos graus negativos em Felgueiras; quem jogou em tantos campos pelados pelo país fora e, ainda assim, sobreviveu para contar a história, tem de ter mais histórias para contar. Eu acredito. Mesmo não sendo benfiquista.

 

 









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