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Por que motivos não podemos escolher a forma como morremos?
Publicado em: 13 Mar, 2013
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A minha querida colega e amiga Lucília Galha apresenta hoje, pelas 18h30, na livraria Buchholz, o seu livro Morte Assistida. Trata-se de uma obra jornalística que fala daquele que devia ser, logo a seguir ao direito à vida, o mais sacralizado dos direitos: o direito a escolhermos a forma como queremos morrer. Em alguns países mais desenvolvidos que o nosso, já é possível acabar a vida com dignidade. Por cá, é o que se sabe.

No livro, a Lucília narra a história da única portuguesa que foi à Suíça morrer com a ajuda da associação Dignitas. E conta muito mais. Se quiserem aparecer hoje, poderão ouvir Maria Filomena Mónica e o neurocirurgião Mamede de Carvalho a falar sobre o assunto – serão eles que apresentarão a obra.

Deixo-vos um excerto, roubado ao Informador:

“O quarto só tinha uma cama estreita de ferro, coberta por uma manta vermelha, à sua frente, um sofá, e também um lavatório e um crucifixo. Estava sol, mas a única janela dava para as traseiras do prédio. Maria quis ser a primeira a entrar e sentou-se à beira da cama. Ao seu lado, numa mesinha, a servir de cabeceira, já estava a substância: um copo pequeno de plástico cheio até metade.

O homem, voluntário da Dignitas, afastou-se para que se pudessem despedir. Maria tentou evitar esse momento. “Ah não vale a pena!” Mas João insistiu. “Não, dê cá dois beijinhos.” Abraçaram-se e ele disse-lhe: “Olhe, faça uma boa viagem.” Nessa altura, Ana, mulher de João, já estava virada de costas a chorar. “Então? Dá cá um abraço rapariga!” Maria agarrou-a e disse-lhe apenas: “Muito obrigada!” Depois, emocionada mas radiante, acrescentou em jeito de despedida: “Se é verdade que Deus existe, e que vamos todos para o céu, então esta noite vai lá haver uma grande festa porque eu vou encontrar-me com a minha mãe e com os meus irmãos.” Essa foi a única vez que os dois amigos de Maria a viram chorar.

As duas pessoas que estavam a assistir o suicídio e que receberam Ana, João e Maria no apartamento umas horas antes, não falavam português. A mulher alternava entre o italiano e o espanhol; o homem só falava francês. Maria não sabia línguas. Contudo, para aquela última pergunta, e ao contrário do que acontecera até então (desde o início era João que ajudava a traduzir e a responder aos emails da associação), não podia haver mediadores. Então, Ana escreveu a pergunta num papel e ajudou o homem a dizê-la numa espécie de português misturado com espanhol.

Minutos depois, já com a câmara de filmar ligada e colocada de frente para Maria, o homem fez-lhe a pergunta:

– Tem consciência do que lhe pode acontecer se tomar este medicamento?

Sem pensar duas vezes, ela respondeu determinada: “Tenho.” Pegou no copo e bebeu. Logo de seguida, o homem deu-lhe um pouco de água e também um chocolate para reduzir o amargo da boca causado pela substância. Maria já não conseguiu terminá-lo, perdeu de imediato a capacidade de mastigar e o chocolate começou a escorregar-lhe pelo canto da boca.

Preocupada, Ana ainda interpelou a amiga: “Estás bem? O que estás a sentir?” Mas ela já não lhe respondeu. Inanimado, o corpo de Maria começou a inclinar-se e João, juntamente com o voluntário da associação, ajudaram a deitá-la para não cair. Foi então que começaram a ouvir a sua respiração ofegante, “como se fosse um ressonar profundo”, conta Ana. Os seus músculos estavam a paralisar aos poucos, mas o coração ainda batia. Não havia movimento, nem reacção, só aquela respiração ofegante. Mas Maria não estava a sofrer – o pentobarbital de sódio, que uns minutos antes tinha ingerido, é um sedativo potente com uma acção muito rápida. Depois, começou a ouvir-se uma música instrumental, suave, muito baixinho… mas o som do ressonar era ainda mais forte. O voluntário foi-lhe tomando o pulso para sentir os batimentos e, a dada altura, aquele som parou.

Maria acabara de morrer.”

 

 









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