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Os bastidores das minhas notícias – o caso do deputado que fanou dois gravadores no Parlamento
Publicado em: 11 Mar, 2013
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Tema seguinte: off-shores. Enquanto deputado do PS, Rodrigues defendeu com veemência e valentia o fim dos paraísos fiscais. Problema: na qualidade de advogado de Débora Raposo criou contas em off-shore. Uma contradição para qualquer pessoa que não padeça de uma qualquer maleita mental mas não para Ricardo Rodrigues, que se mostrou amplamente confortável com a sua estranha sinuosidade política.

 

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Prosseguimos para outro tema sensível: o seu alegado envolvimento do caso Farfalha. Para quem não conhece o caso, trata-se de um escândalo de pedofilia noticiado pela SIC há alguns anos. Nele, estariam envolvidas as elites açorianas, que alegadamente se encontravam numa garagem – a garagem do Farfalha – para abusar de crianças.

Nessa altura Ricardo Rodrigues era membro do Governo açoriano. Na sequência dos boatos que o ligavam à rede, decidiu abandonar o Executivo. Na declaração pública em que anunciou a demissão relacionou a saída directamente com o escândalo em curso. Tomara uma decisão política em função de um facto relativo à sua vida privada.

Tendo em conta este enquadramento, passaria pela cabeça de alguém que se deixasse de fora este tema só porque é “sensível”? O facto de Ricardo Rodrigues nunca ter sido sequer arguido no caso retira-lhe relevância jurídica mas não o esvazia de interesse jornalístico, uma vez que na sua sequência o deputado tomou uma decisão política que lhe mudou a vida. Alguém imagina uma entrevista aberta a Paulo Pedroso sem que se aborde o escândalo Casa Pia? Claro que não – e Pedroso foi ilibado, não foi?

A pergunta – apenas uma das mais de 50 que constituem a entrevista – foi o pretexto ideal  para que Ricardo Rodrigues tenha decidido dar uma aula grátis para carteiristas directamente a partir da AR: levantou-se com elegância e com elegância arrumou dois gravadores nos bolsos das calças. Nem eu nem a Maria Henrique Espada demos conta do que acabara de acontecer – foi, há que reconhecê-lo, trabalho de profissional.

Vinte segundos depois de recuperarmos do misto de incredulidade e riso, constatámos que nos faltava algo. Numa reacção intempestiva ainda corri pelos corredores da AR à procura do meliante. Acabei por encontrá-lo já fora do edifício, onde aproveitei para lhe dar a possibilidade de restituir o material furtado. Perante a sua falta de vontade em colaborar, desisti, entrei no táxi e disse à Maria Henrique Espada que tínhamos a história do ano nas mãos. O resto é conhecido: os gravadores já foram restituídos e Rodrigues foi condenado em tribunal pelo crime de atentado à liberdade de imprensa. Apesar disso, ainda pode ser visto diariamente sentado nas bancadas da Assembleia da República. Estranho, este país em que vivemos, não?









1 comentário a “Os bastidores das minhas notícias – o caso do deputado que fanou dois gravadores no Parlamento

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