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Os bastidores das minhas notícias – VII
Publicado em: 06 Fev, 2013
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“Onde raio é que o senhor arranjou este documento?!”, vociferou Almerindo Marques na minha direcção. A cólera justificava-se: nessa manhã, O Independente tinha feito  manchete com os resultados explosivos de uma auditoria interna encomendada pelo presidente para avaliar o desempenho dos jornalistas da estação. Estávamos em 2003 e a questão da reestruturação financeira da RTP era tão actual como é hoje – quem disse que em Portugal os assuntos não são resolvidos depressa e bem?

Enquanto líder da RTP, Almerindo queria promover uma limpeza na estação. Havia pessoas a mais que faziam de menos – é bonito ver que entretanto tudo mudou, não é? Para que tudo corresse como planeara, seria fundamental não libertar demasiado cedo os resultados da auditoria – eram tão violentos que podiam lançar areia na engrenagem de um processo que não seria viável sem muita diplomacia à mistura. Entre outras coisas, concluía-se que a produtividade média dos jornalistas da estação situava-se nuns míseros 40%. E que algumas das suas maiores estrelas basicamente não faziam nada. Nada.

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O colérico Almerindo

A fuga de informação poderia colocar tudo em causa. Logo pela manhã, recebi um telefonema de alguém em nome do presidente. Queria falar comigo. Inicialmente pensei que me queria dar mais informação. Na realidade só desejava prendar-me com uma enormíssima lição de portugalidade. Alegadamente, eu colocara a minha estúpida curiosidade mórbida antes do glorioso “interesse nacional”. Mais: a minha acção era similar à de um qualquer bandido que assalta um banco. Tentei explicar-lhe que não tinha encostado uma pistola à cabeça de ninguém para conseguir a informação e que era relevante divulgar publicamente a inutilidade de muitos dos quadros de uma empresa pública que dava milhões de prejuízo – uma vez mais, fico feliz por entretanto tudo ter mudado. Em desespero cheguei a dizer-lhe, sem me rir, que a notícia ira ajudá-lo a concretizar o seu plano. Almerindo não se comoveu com os meus argumentos. Levou a sua palestra até ao fim e acompanhou-me simpaticamente à porta.

 – Depois desta conversa, suponho que posso contar com a sua responsabilidade no futuro, certo?”

Não gosto de fazer promessas, senhor presidente. E nunca fui um nacionalista convicto. Mas farei o meu melhor.

Dito isto, fiquem com um vídeo excelente sobre o gestor, que depois da RTP ainda fez miséria noutras empresas igualmente interessantes. Aviso: a selecção musical é tão excêntrica quanto ele.

 









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