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Os bastidores das minhas notícias – IV
Publicado em: 15 Jan, 2013
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Há cerca de 15 anos, surgiu em Portugal o que poderia ser um novo herói nacional. Chamava-se Alfredo Pequito, era ex-delegado de informação médica da multinacional farmacêutica Bayer e explodiu nos jornais e nas televisões de Portugal e do mundo a denunciar a prática generalizada de corrupção de médicos pela empresa alemã.

As acusações eram terríveis: basicamente, os senhores doutores, a troco de dinheiro, de canetas, de agrafadores, de máquinas de lavar roupa, de ferros de engomar e, naturalmente, de viagens para simpáticas e distantes zonas do globo, receitavam toneladas de medicamentos da marca. O esquema funcionava de forma massiva: não era um; não eram 10; não eram 100 – eram milhares em todo o país.

A partir do momento em que Pequito avançou com as denúncias, todos os jornalistas desataram à procura de outros pequitos. Mas o tempo passou e nada – o medo de retaliações era demasiado grande. Até que um dia recebi uma carta anónima a revelar-me o caso de um ex-delegado acabado de sair de um processo de litígio com um laboratório farmacêutico. Ricardo Felgueiras – era esse o seu nome – tinha feito exactamente o que Pequito e centenas de outros colegas fizeram: corromper, aliciar, seduzir, agradar.

Não foi fácil encontrá-lo. E foi ainda mais difícil convencê-lo a dar a cara. Tinha medo, claro. Foram necessárias muitas conversas até que finalmente falasse. A verdade é que nunca acreditei que o fizesse. Mas fez. Numa longa entrevista, relatou-me as técnicas que o laboratório o obrigava a utilizar para convencer médicos a prescrever medicamentos da marca. Não era bonito.

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A entrevista em que Ricardo Felgueiras assume que corrompeu médicos

Quando cheguei à redacção do Independente, não houve hesitações em decidir que a entrevista seria a manchete daquela edição.

Quando tudo parecia correr bem, o telefone toca. Eram 10 da noite. O jornal estava prestes a fechar. Do outro lado da linha, estava Ricardo Felgueiras.

– Não autorizo a publicação da entrevista, afinal não quero assumir nada, não sou um herói.

– Ricardo, lamento muito mas não há margem de recuo. E não é só pelo facto de o jornal estar pronto para ir para a gráfica, é porque o Ricardo é adulto e tem de ser responsável pelo que diz.









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