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Cavaco é bom – orgulhosamente bom
Publicado em: 06 Jan, 2013
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salazar

Cavaco Silva deu ontem uma notável entrevista ao “Expresso”. Entre outras barbaridades, volta a sublinhar que gostaria ficar na História como um técnico, nunca como um político. Esta afirmação pública de aversão à política, aos políticos e a tudo o que ambos significam em Portugal é recorrente no personagem. Convenhamos que o homem tem alguma razão em querer manter uma distância higiénica em relação à classe política nacional, mais conhecida pelos seus defeitos do que pelas magníficas qualidades. Problema: Cavaco é político. Profissional. Genial, até. Tão genial que conseguiu esta coisa notável: apesar de viver de e para a política nos últimos 30 anos, ainda há portugueses convencidos de que Cavaco nada tem a ver com o establishment político. Ora, Cavaco é o establishment político.

Na entrevista ao Expresso, o presidente revela ao país que, ao contrário dos “políticos”, esse bando de animais, não tem jeito para a intriga política. Claro que não. Não foi ele que pôs a circular a notícia segundo a qual José Sócrates o tinha sob escuta. Claro que não, foi Fernando Lima, por acaso o seu mais fiel colaborador.

Cavaco também diz que, ao contrário dos “políticos”, essa raça pestilenta, não tem jeito para a sedução de jornalistas. Claro que não. Claro que o Presidente não tem jornalistas com quem mantém uma relação privilegiada e a quem utiliza para, nos momentos em que mais lhe interessa, difundir  verdades, meias verdades e inverdades.

cavaco

Na mesma entrevista, o Presidente tenta, pela enésima vez, passar a imagem de um “homem sério”: Cavaco não mente. Cavaco não trai. Não?

Comecemos pela primeira premissa. Cavaco não mente? Claro que não. Não foi ele que disse recentemente que a sua pensão não lhe daria para sobreviver. Segundo ele, o dinheiro era pouco… Veio a saber-se depois que leva para casa todos os meses cerca de 10 mil euros em pensões – o valor é de tal modo elevado que prescindiu do seu vencimento como Presidente da República.

Cavaco não trai? Claro que não. Não traiu Fernando Nogueira, a quem tirou o tapete nas eleições legislativas, contribuindo decisivamente para a sua derrota frente a Guterres. Não traiu Santana Lopes e o PSD, ao mandar retirar a sua cara dos cartazes de campanha do menino guerrreiro. Não traiu Mário Soares. E não traiu muitos outros, dentro e fora do seu partido – claro que não.

amigos cavaco

Quem, efectivamente, Cavaco nunca traiu foram os seus verdadeiros amigos. Pessoas que ele promoveu, que estiveram com ele no governo e que entretanto se tornaram “empresários de sucesso”, com obra feita em instituições insuspeitas como o BPN – onde, aliás, o presidente chegou a ter um simpático conjunto de acções, que lhe foram simpaticamente vendidas por Oliveira Costa (ex-presidente do BPN que, adivinharam, foi seu colega de governo) a um preço ainda mais simpático. Não, Cavaco não é político. Não, Cavaco não intriga. Não, Cavaco não mente. Não, Cavaco não trai. Cavaco é bom. Orgulhosamente bom.









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